Ferro-velho na ‘Motor City’ é parque de diversão e ajuda em tempo de crise

Detroit, Estados Unidos da América, 05 nov 2026 (Lusa) – Um ferro-velho é um ‘parque de diversão’ para muitos habitantes da cidade de Detroit, centro histórico da indústria automóvel norte-americana, e ponto de passagem obrigatório em tempos de crise, quando comprar carro novo não é opção.

Em Sterling Heights, um subúrbio a cerca de 30 quilómetros do centro da ‘Motor City’, a chuva não impede Tim de pegar num carrinho de mão e percorrer o parque onde há muitas centenas de automóveis envolvidos em acidentes que não voltarão a andar e só servem para fornecer peças, dos motores aos estofos.

“Costumo vir aqui e consigo preços muito bons em pneus para os meus carros, que estão sempre a ficar carecas”, disse à agência Lusa, frisando que os habitantes da área metropolitana de Detroit continuem a ser “absolutamente fãs de automóveis”.

Com o aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra dos Estados Unidos contra o Irão e o estrangulamento do tráfico mundial de petróleo no estreito de Ormuz, admitiu que muitos pensam duas vezes “antes de investir num carro novo”, mas numa área metropolitana com cerca de 15 mil quilómetros quadrados com mais de quatro milhões de pessoas, “tem que se conduzir, porque toda a gente tem sítios para ir”.

“Já montei uns três carros com motores e peças que vieram deste ferro-velho. Estou sempre a trabalhar em qualquer coisa na entrada da minha garagem. Além disso, tenho três filhos, cada um com o seu carro, e estou sempre a arranjar-lhes coisas.

Como muitos habitantes da zona de Detroit, Tim tem dois carros clássicos Chevrolet Chevelle para os quais vai procurando peças para renovar, mas esses são projetos “a muito longo prazo”.

Hoje em dia, os automóveis que aqui estão, muitos deles autênticos destroços, são relativamente recentes, mas este local costumava ser um cemitério de carros clássicos dos Estados Unidos, incluindo carros de modelos especiais e inovadores estreados no festival Motorama, da gigante automóvel General Motors, que percorreu algumas das principais cidades do país de 1949 a 1961.

Durante anos, partilharam o espaço com o resto da sucata.

“Eu costumava vir cá muito quando era jovem, mas a maior parte do que aqui estava já era demasiado velho para poder tirar alguma coisa de que precisasse. Mas havia aqui muitos carros antigos que eu gostaria de ver hoje em dia. Não gosto só de carros ‘vintage’, para mim tudo serve”, referiu Tim.

O ferro-velho, que antes era conhecido como Warhoops, foi fundado em 1956 por um veterano da Segunda Guerra Mundial e vendido no início deste ano a uma empresa de Detroit que modernizou o local.

“Compramos tudo o que as pessoas estão dispostas a vender e vendemos tudo o que conseguirem tirar dos carros”, disse à Lusa a gerente do que agora se chama US Auto Supply, empresa que comprou o espaço no princípio do ano, Kortnie McBride.

A lista do que está disponível está na Internet e a ‘Black Friday’ [sexta-feira a seguir ao dia de Ação de Graças no qual as lojas fazem tradicionalmente descontos] do ferro-velho dá oportunidade aos clientes de levar tudo o que conseguirem carregar numa distância de seis metros por 60 dólares”.

“Nesse dia, parece um manicómio. Até há pessoas que vêm dormir à porta”, afirmou à Lusa outro cliente que veio percorrer o enorme pátio, Jerry Keys.

No Warhoops, a principal atração para os amantes de automóveis era a secção de antigos que estavam todos juntos no mesmo sítio.

“Tínhamos que andar aqui pela lama, nada estava organizado, os carros estavam aqui ao relento amontoados. Às vezes, havia ninhos de abelhas ou animais selvagens dentro dos automóveis, que estavam aqui para sempre”, contou.

Agora, além do pavimento ser alcatrão, os carros estão organizadas por marcas, modelos e tipos, o que torna “mais fácil de encontrar o que se procura”, indicou, acrescentando que cada carro está exposto durante 30 dias. Ao fim desse prazo, enormes empilhadoras pegam nos carros e levam-nos para o compactador, que os esmaga, separa os materiais e transforma-os num paralelipípedo de metal, plástico e outros materiais que outrora eram um automóvel.

“Os carros agora sao muito mais caros, até os usados. É por isso que tanta gente vem aqui. Até os vendedores de carros usados vêm aqui buscar peças: pára-choques, tejadilhos…já cheguei a ver pessoas virem com serras elétricas e cortar frentes de carros inteiras para as levar. E é preciso ser rápido, porque as melhores coisas desaparecem num instante, sobretudo dos carros mais populares”, descreveu.

Sobre o balcão de atendimento, passa continuamente num écrã gigante uma ‘lista negra’ com fotografias de clientes que roubaram peças, passaram cheques sem cobertura, foram mal-educados ou até agrediram fisicamente algum dos funcionários.

Entre muitos cartazes com preços, promoções e até um que indica a preferência política dos donos, onde se lê em inglês “Deus, armas e Trump”, o mesmo presidente cuja guerra contra o Irão leva ali muitos clientes para quem a gasolina está pela hora da morte e comprar um carro novo está, por enquanto, fora de questão.

*** António Pereira Neves (texto) e Tiago Petinga (fotos), da agência Lusa ***

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