
Lisboa, 04 nov 2026 (Lusa) — Os participantes na Acampada de Lisboa começaram a montar tendas no Rossio pelas 23:30 de terça-feira, em mais uma ação pelo direito à habitação.
“É da Renata”, ironizava uma manifestante, enquanto montava uma tenda junto a outra que ali se encontrava instalada desde o entardecer, numa alusão à autorização judicial para a ativista Renata Cambra montar uma tenda na Praça D. Pedro IV.
Outra manifestante, que ajudava na montagem de uma de quatro tendas, avisava que era “preciso deixar corredores”.
Pouco depois, a montagem de tendas prosseguiu e, num espaço delimitado por uma fita branca colada na calçada da praça, a Lusa contabilizou seis dezenas de estruturas, a maioria com formatos comuns, mas também uma que seria mais para um animal de companhia, com um cartaz a pedir “menos turismo, mais bairro”.
Para Tomás Gonçalves, 24 anos, a frequentar o mestrado no Instituto Superior Técnico, a opção por acampar no Rossio resulta de haver “um direito” na Constituição, que “está a ser negado” à sua geração, mas que “é um problema transversal, obviamente, a todas as idades”.
“A lei do arrendamento tem de cair, tem de haver um teto nas rendas, obviamente tem de haver aproveitamento de imóveis devolutos para a habitação. Ao contrário do que se tem dito, nós não consideramos que seja por construir mais que exista um decréscimo no preço da habitação”, apontou, acrescentando que “há muita casa sem gente e essa casa tem que ser ocupada”.
O jovem, natural de Torres Vedras, paga 600 euros por um quarto em Lisboa, e admitiu que tem sentido “uma vaga de apoio cada vez maior, seja por via das redes sociais”, do “contacto informal nas ruas” ou “dos buzinões cada vez que um carro” passa no Rossio.
A motivação para Constança, 26 anos, emigrante nos Países Baixos, montar uma tenda na Baixa de Lisboa reside no facto de “não poder viver na cidade” onde nasceu e cresceu “e ter sido forçada a emigrar pela falta de oportunidades, de qualidade de vida e o preço da habitação”.
As cargas policiais, garantiu à Lusa, não a fizeram desistir de acampar no Rossio, “muito pelo contrário”, reforçou a convicção na luta, pois há um direito “à manifestação que é garantido pela Constituição e ver isso a ser violado por políticos que não têm nenhuma noção do que é a realidade do português comum, é vergonhoso”.
Entre as exigências para terminar com a acampada, Constança advogou “que a nova lei dos arrendamentos não passe e que se comece a pensar seriamente no alargamento da habitação social em Portugal, que tem números baixíssimos em comparação com o resto da Europa, tetos nas rendas” e “não despejar pessoas das suas casas sem alternativas de habitação digna”.
“O Luís a trabalhar”, referia-se num cartaz improvisado, num cartão com a impressão de um polícia de choque, enquanto numa tenda montada desde a tarde, outro cartaz proclamava “Solidariedade existe, acampada resiste”.
Uma tenda, num vermelho vivo, ostentava de forma repetida a frase “O povo unido não precisa de partido”, e noutra uma placa apregoava “Vão ouvir a nossa voz”.
“A revolução está dentro de ti”, lia-se numa faixa pendurada na base da estátua, durante a realização da assembleia popular, em que foi chumbada uma proposta que defendia vedar o acesso à mesa do movimento de pessoas ligadas a partidos ou movimentos políticos.
A praça em torno do monumento a D. Pedro IV, ao entardecer, foi-se enchendo, primeiro com alguns grupos isolados, em debates ou com danças, e depois com centenas de pessoas junto da assembleia popular.
Em vários momentos da concentração, automobilistas buzinavam, em apoio aos manifestantes, e ciclistas faziam ouvir as campainhas, em redor da praça, recebendo aplausos e incentivos dos manifestantes, e pelo menos um automóvel foi mandado parar pela PSP.
“Há uma recusa absoluta que me parece que só pode vir do desespero, da fragilidade de um Governo que é minoritário, que é cada vez mais impopular, repete as medidas que já toda a gente conhece e que sabe que são insuficientes”, considerou Renata Cambra, em reação ao anúncio do primeiro-ministro de ouvir os principais partidos sobre medidas para a habitação.
Apesar de admitir “que há responsabilidades partilhadas entre o PSD e o PS em relação à crise da habitação”, a ativista lamentou que o executivo beneficie “em primeiro lugar os fundos imobiliários, as grandes construtoras, os especuladores, e não as pessoas que, com o seu trabalho, procuram fazer face aos preços da habitação”.
“Temos um Governo que diz que a renda moderada é de 2.300 euros, que é equivalente a dois salários médios, ou seja, é incomportável o custo de vida e se o custo de vida em geral é incomportável, a habitação é aquilo que nos retira a fatia maior”, acrescentou.
A PSP já dispersou em diversas ocasiões as acampadas em Lisboa e no Porto, com cargas policiais que provocaram mais de duas dezenas de feridos entre manifestantes e polícias.
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