Reunião entre PM francês e partidos termina sem progressos

Paris, 22 out 2026 (Lusa) — As reuniões entre o primeiro-ministro francês e os principais partidos, realizadas num contexto de contestação social, terminaram hoje sem avanços, com a esquerda e a direita a manifestarem frustração com a falta de progressos e de disponibilidade do Governo.

O coordenador-geral do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), Manuel Bompard, acusou Sébastien Lecornu de “fazer o país perder tempo” e que “em nenhum momento entrou no debate específico sobre as reivindicações dos jovens, sobre as reivindicações do país, sobre a ira ou sobre o sofrimento social”.

À saída da sede de gabinete do primeiro-ministro, a deputada do partido de extrema-direita União Nacional (RN, na sigla em francês), Edwige Díaz, acusou Lecornu e o ministro do Interior, Laurent Nuñez, de passarem “três horas a esquivar-se às responsabilidades”.

O primeiro-ministro tinha-se reunido na quarta-feira com os sindicatos franceses e foi acusado também pelos mesmos de ignorar as suas reivindicações.

No passado fim de semana, protestos contra o aumento do custo de vida e a situação do setor da educação acabaram por ficar marcados por atos de violência em várias cidades francesas, incluindo danos em edifícios públicos e pilhagens em estabelecimentos comerciais.

Para o próximo sábado, Paris e outras cidades estão a preparar-se para uma nova mobilização dos “coletes amarelos”, movimento cuja contestação aos preços dos combustíveis abalou França em 2018 e 2019.

As autoridades decretaram hoje a prorrogação do recolher obrigatório em certas zonas de Paris, nomeadamente na Praça da República e no bairro histórico de Les Halles, todas as noites, das 23:00 às 06:00 locais (entre as 22:00 e as 05:00, hora de Lisboa), até segunda-feira de manhã.

A polícia acompanhou também, mais uma vez, este decreto com uma proibição que visa “qualquer concentração não declarada” durante a noite de hoje para sexta-feira, nomeadamente nas imediações da Presidência da República (Palácio do Eliseu), da Assembleia Nacional (parlamento), da avenida dos Campos Elísios ou ainda das estações ferroviárias.

Após a reunião com Lecornu, a secretária-geral dos Ecologistas, Marine Tondelier, criticou igualmente o resultado final do encontro que se revelou “muito pior do que o previsto”.

“Já não nos compreendemos”, disse Tondelier, acrescentando que a reunião nem sequer resultou “numa análise interessante da situação”.

Já o secretário-geral do Partido Comunista francês, Fabien Roussel, disse sentir-se enganado, porque o que tinha sido comunicado como um encontro para debater a crise acabou por ser “uma explicação das políticas de manutenção da ordem”, em vez de propor “medidas contundentes a favor dos franceses”.

Por sua vez, o candidato presidencial socialista, Raphaël Glucksmann, argumentou que, pelo menos, o Governo tem propostas em cima da mesa e que o que é necessário agora é que as analise para formular um plano concreto.

“Quando se enfrenta um movimento social desta magnitude, é preciso dar respostas políticas às reivindicações. Temos de ouvir a ira dos jovens, as preocupações e as ansiedades da população francesa”, acrescentou.

Enquanto os partidos procuram um entendimento político para responder às exigências dos manifestantes que voltaram hoje às ruas, o departamento Bouches-du-Rhône (sul) anunciou que serão proibidas todas as manifestações para sábado em Marselha, declaradas ou não.

“Por razões óbvias de segurança e de disponibilidade das forças de segurança interna”, anunciou o departamento.

Lembrando “os saques, danos e atos de vandalismo” ocorridos no fim de semana passado, as autoridades da região anunciaram também num comunicado que os transportes públicos serão suspensos das 05:00 de sábado (04:00 em Lisboa) até às 05:00 de domingo (04:00 em Lisboa) na área metropolitana de Marselha.

Além disso, o recolher obrigatório atualmente em vigor para menores no centro da cidade e em certas zonas comerciais será alargado aos maiores de idade nas noites de sábado para domingo e de domingo para segunda-feira.

Ainda na capital francesa, os museus parisienses do Louvre, d’Orsay, Picasso e o Grand Palais estarão encerrados no sábado devido às manifestações previstas, anunciou hoje o Ministério da Cultura num comunicado.

Tendo em vista este novo dia de mobilização nacional, o ministério apelou também a “todas as instituições sob a sua tutela” para que tomem todas as medidas necessárias para garantir “a segurança dos visitantes”, “a proteção dos funcionários” e “a preservação das obras”.

O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, anunciou hoje que 217 pessoas foram encarceradas, de entre as 2.700 detidas pela polícia após a onda de violência e pilhagens do fim de semana em França.

 

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