
Cairo, 21 out 2026 (Lusa) — O Presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, declarou hoje que o apoio militar proposto pelo Cairo a Riade, face aos rebeldes huthis iemenitas pró-iranianos, visa “defender o território saudita” e não prevê ataques no Iémen, indicou a imprensa estatal.
“A estabilidade dos nossos irmãos do Golfo faz parte da segurança nacional do Egito”, acrescentou al-Sisi, citado pela al-Qahera News, uma estação televisiva estreitamente ligada aos serviços de informações, que deverá transmitir posteriormente um discurso do Presidente.
Na segunda-feira, o parlamento egípcio adiou para o próximo dia 26 de outubro a sessão plenária convocada a pedido de al-Sisi para votar sobre um eventual apoio militar à Arábia Saudita, face aos ataques dos huthis do Iémen.
O parlamento, presidido por Hisham Badawi, tinha realizado no domingo uma sessão plenária em resposta ao pedido do chefe de Estado egípcio, mas, após mais de duas horas de debates, cujos pormenores estão por conhecer, decidiram adiar a votação.
Em resposta, a partir da Sana, o presidente do parlamento controlado pelos rebeldes huthis, Yahya Ali al-Raai, advertiu o Egito contra qualquer intervenção militar no Iémen.
Numa “carta urgente” assinada pelos membros do parlamento controlado pelos huthis e enviada ao presidente da assembleia egípcia, Yahya Ali al-Raai alertou que uma intervenção do Egito no Iémen “representará um grave perigo para a segurança nacional e estabilidade interna”, bem como para a estabilidade regional.
Além disso, manifestou preocupação com a possibilidade de o Egito apoiar militarmente a Arábia Saudita, país que tem estado sob fogo huthi nos últimos meses e cujas instalações energéticas e civis — incluindo os aeroportos — têm sido alvo de ataques que causaram dezenas de mortos e feridos em apenas algumas semanas.
“Rejeitamos categoricamente arrastar o Egito árabe e histórico para uma batalha que não reflete os seus valores”, afirmou Yahya Ali al-Raai, após argumentar que o Cairo não deveria aliar-se às forças que lutam contra o Iémen, apesar de o exército egípcio ter feito parte da coligação militar liderada por Riade que intervém contra os huthis desde 2015.
Também hoje, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, alertou contra qualquer intervenção do Egito — ou de qualquer outro país — no conflito no Iémen, que opõe os huthis, alinhados com o regime de Teerão, ao governo apoiado por Riade e reconhecido pela comunidade internacional.
“O Egito tem experiência suficiente para evitar envolver-se num conflito tão altamente complexo”, afirmou o chefe da diplomacia iraniana numa entrevista dada no domingo e transmitida hoje pela televisão estatal iraquiana Al-Iraqiya.
Apesar de ainda se desconhecerem os pormenores da proposta a submeter a votação, alguns analistas e meios de comunicação social árabes e egípcios sugerem que o pedido poderá incluir a mobilização de sistemas de defesa aérea e caças, juntamente com os respetivos operadores e técnicos, e até mesmo um possível envio de tropas.
A única informação oficial sobre esta proposta foi o que al-Sisi afirmou no sábado, quando declarou que o Egito adotará todas as medidas necessárias para defender Riade e solicitou ao parlamento que convocasse uma sessão extraordinária para debater um eventual apoio defensivo.
O artigo 152.º da Constituição egípcia estipula que o Presidente da República, que é simultaneamente o comandante supremo das Forças Armadas, não pode declarar guerra nem mobilizar o exército para missões de combate fora das fronteiras do país sem consultar previamente o Conselho de Defesa Nacional e obter a aprovação da Câmara dos Representantes por maioria de dois terços.
Alguns deputados egípcios já manifestaram dúvidas sobre este pedido e, no domingo, o Partido Social-Democrata egípcio afirmou num comunicado que se absterá, justificando que, embora a sua solidariedade para com o reino saudita e os países árabes seja “inabalável”, considera que “salvaguardar a segurança nacional egípcia exige objetivos claros”.
Em meados de setembro, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, efetuou uma visita relâmpago ao Egito para se reunir com al-Sissi, com quem concordou que “as circunstâncias atuais exigem uma maior solidariedade e coordenação entre ambos os países, uma vez que os seus interesses e objetivos coincidem”.
A Arábia Saudita é um dos principais aliados do Egito no Médio Oriente e o principal pilar de apoio económico.
Os confrontos entre os huthis e as forças governamentais iemenitas — apoiadas pela Arábia Saudita — puseram termo ao acordo de cessar-fogo de 2022 e que tinha, em grande parte, parado os combates na guerra civil iemenita, que teve início em 2014.
JSD (TAB/PSP) // SCA
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