
Paris, 08 out 2026 (Lusa) – Apesar das críticas a alguns excessos nos últimos dias, a polícia francesa voltou a responder com robustez à manifestação do movimento estudantil hoje em Paris, usando um canhão de água e gás lacrimogéneo.
Após uma marcha pelas ruas e concentração na Praça da Bastilha que mobilizou dezenas de milhares de jovens e que decorreu sem incidentes, pelas 18:00 locais (17:00 em Lisboa) a polícia começou a apertar o cerco.
Armados com capacetes, escudos e bastões, os agentes do corpo de intervenção avançaram para a multidão que se mantinha junto ao monumento no centro da praça conhecida pelo papel na Revolução Francesa de 1789.
Além de gás lacrimogéneo e granadas de dispersão, cujo barulho intimida as multidões, o corpo de intervenção usou um canhão de água, fazendo as últimas centenas de resistentes fugir a correr, observou a agência Lusa no local.
A maioria dos estudantes já tinha saído calmamente pelas poucas saídas possíveis, já que as forças de segurança fecharam várias ruas em redor da praça, localizada numa zona central da capital francesa.
“Não temos medo dos manifestantes, temos medo da polícia. Temos medo de ser agredidos porque já houve tantos abusos que se tornou simplesmente sistémico”, disse à Lusa uma estudante, Daphné.
Também à Lusa, a amiga Camille afirmou considerar esta “uma violência injustificada e extremamente violenta contra menores”.
“Enviam a polícia para acalmar os ânimos, mas como simplesmente não compreendem as reivindicações, a única resposta que têm é responder com violência”, lamentou a estudante de 16 anos.
Alguns manifestantes foram preparados para confrontos, envergando lenços à volta da cara, máscaras cirúrgicas descartáveis, capacetes e até óculos de natação para se defender do gás lacrimogéneo.
Durante a concentração, foi lançado fogo-de-artifício e os jovens usaram várias palavras de ordem contra o “estado policial”.
“Nós detestamos mesmo a polícia”, cantaram a dada altura, enquanto num cartaz lia-se: “Quero estudar para não ter ser polícia”.
É uma “juventude revoltada pronta a reagir”, admitiu, em declarações à Lusa, a professora de francês Suzanne Le Men, que esteve na manifestação.
“Houve bastantes explosões de morteiros, havia algum barulho, estava bastante agitado. Mas o início da manifestação foi muito agradável e estava com vários colegas”, contou à Lusa.
Alguns jovens lançaram objetos contra os agentes e continuaram nas ruas posteriormente, apesar das ordens de dispersão.
O Ministério do Interior comunicou ter registado hoje “um aumento da violência urbana” pelos estudantes, tendo sido efetuadas 504 detenções. Quarenta e oito polícias foram feridos ao longo do dia.
No total, citou o jornal Le Monde, o Governo estimou que 71.500 pessoas manifestaram-se em França, das quais 24.500 em Paris.
Centenas de estudantes e polícias foram feridos desde o início dos protestos, há cerca de duas semanas, tendo alguns incidentes desencadeado investigações internas pela entidade que supervisiona a atividade policial.
Em Tours (centro), na semana passada, um aluno do ensino secundário de 16 anos perdeu a visão de um olho durante um bloqueio, e, na segunda-feira, um manifestante, um adolescente de 15 anos, perdeu a mão devido a uma granada de atordoamento disparada pela polícia em Lens (norte).
Um polícia, que lançou uma granada lacrimogénea diretamente ao rosto de um aluno de 14 anos, que ficou com o maxilar partido na região de Paris, foi indiciado na terça-feira por violência.
Pelo lado dos estudantes, foram registados vários atos de vandalismo, como incêndios em estabelecimentos escolares.
*** Bruno Manteigas, enviado da agência Lusa ***
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