Tráfico de medicamentos na África Central é grave ameaça para a saúde pública – ONU

Libreville, 06 out 2026 (Lusa) – O gabinete das Nações Unidas contra a droga e o crime (UNODC) alertou hoje que o tráfico de medicamentos na África Central, alimentado pelas dificuldades de acesso aos cuidados de saúde, constitui uma “grande ameaça para a saúde pública”.

Nos seis países da Comunidade Económica e Monetária da África Central (CEMAC) que “apresentam indicadores de saúde que se contam entre os mais desfavoráveis do mundo” a discrepância entre as necessidades de saúde e o acesso efetivo a produtos seguros e acessíveis “favorece o desenvolvimento de um mercado ilícito”, lê-se no relatório do UNODC, assinado em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a CEMAC.

Pelo menos 251 toneladas de medicamentos foram apreendidas nos Camarões, no Gabão, no Chade, no Congo, na Guiné Equatorial e na República Centro-Africana entre 2020 e 2025, de acordo com este relatório.

E, nos últimos anos, este tráfico tem sido alvo de uma “intensificação e diversificação”, alertou hoje um responsável do gabinete UNODC durante uma conferência de imprensa.

O tráfico, que “constitui uma grande ameaça para a saúde pública” na região, segundo o gabinete da ONU contra a droga e o crime, diz respeito a medicamentos falsificados, de qualidade inferior ou não aprovados pelas autoridades, mas também a produtos desviados dos circuitos oficiais.

Antibióticos, antimaláricos, analgésicos, anti-inflamatórios ou psicoativos, como o tramadol e a pregabalina, figuram entre os produtos em causa.

Este comércio ilegal favorece “fracassos terapêuticos, intoxicações e mortes evitáveis” e contribui para o desenvolvimento de resistências aos antimicrobianos.

E os produtos resultantes deste tráfico acabam, por vezes, “em estabelecimentos autorizados, geralmente considerados seguros pelos doentes”, denuncia o relatório.

À escala da África Subsariana, a OMS estimava, em 2017, que o consumo destes medicamentos fraudulentos pudesse estar associado a centenas de milhares de mortes por ano.

Os produtos chegam, nomeadamente, através dos portos da região, antes de seguirem pelas principais vias rodoviárias, facilitadas pela porosidade das fronteiras, e também via aérea, no carga ou na bagagem dos passageiros.

Este tráfico envolve, nomeadamente, grupos armados, presentes em certas regiões dos Camarões, do Chade ou da República Centro-Africana, através da pilhagem de centros de saúde, da revenda de produtos ou da cobrança de “taxas” aos comboios.

Para além de “alimentar a criminalidade organizada e enfraquecer as instituições públicas”, este tráfico favorece o uso não médico de produtos associados a fenómenos de dependência, salienta o relatório, que apela ao “reforço da cooperação internacional” para conter o fenómeno.

No Gabão, uma apreensão, no final de setembro, por parte das alfândegas, de 17.000 comprimidos de tramadol ilustra a existência de um “tráfico transfronteiriço” de estupefacientes que “não param de entrar” vindos do vizinho Camarões, segundo um representante das alfândegas gabonesas entrevistado na quinta-feira na televisão pública.

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