Amadeu levou as balanças de Braga para a feira de Maputo e continua 32 anos depois

Maputo, 05 set 2026 (Lusa) – Amadeu Pinto levou há 32 anos o negócio das balanças e pesagem industrial de Braga para Moçambique, para uma feira, e acabou por ficar, primeiro para despachar o material, depois para manter o novo negócio.

“Viemos fazer uma feira com equipamento. Depois houve aquela necessidade de despachar o material. O material não se despacha, as pessoas querem que se ofereça e então a solução foi montar cá uma empresa”, começa por contar à Lusa Amadeu Pinto, sócio-gerente da Carvalho e Araújo Limitada, ou Loja das Balanças em Moçambique, do grupo Paulo Internacional.

Agora, o grupo, que tem origem numa empresa centenária de Braga, norte de Portugal, volta à 61.ª Feira Internacional de Maputo (Facim), onde tudo começou há 32 anos.

“Ao montar uma empresa ficou-se cá e começam a surgir compromissos. E houve muitos anos, muitos anos mesmo, a dar prejuízo, mas também não era tanto prejuízo que fosse complicado. E porque não pegar nos ovos e meter noutro cesto? E foi isso que aconteceu há trinta e poucos anos”, recorda Amadeu Pinto.

A empresa é uma das cerca de 100 de capital português presentes na Facim, que decorre até domingo, nos arredores de Maputo, com cerca de 3.000 expositores de 29 países.

“Basicamente é pesagem industrial. As básculas, pesagem dos camiões, as plataformas para a indústria, para a pesagem das paletes, as básculas de grande porte para a pesagem de animais, tudo o que seja relacionado com a indústria e o comércio”, explica, sobre o seu negoócio.

Em Portugal tem cerca de meia centena de trabalhadores, em Moçambique uma dúzia, apesar da natureza “muito específica” do negócio, num país que aposta nas infraestruturas, apoiada nos megaprojetos de gás natural.

“Na verdade, o país precisa mais é de construção, infraestruturas, e aí é que precisam dos empresários portugueses”, conta.

Garante que, por entre dificuldades habituais e outras pontuais, o negócio “pelo menos” não dá prejuízo, e acredita em Moçambique, e também em Angola, para onde vendem.

“Eu sempre fui muito otimista. Desde o início que eu sempre fui otimista. Agora, não vamos, e aconselho que ninguém o faça, e nós não o fizemos, largar tudo em Portugal para vir para Moçambique ou Angola, onde quer que seja, dizer ‘ali está a minha vida, ali está o meu futuro’. É um erro”, diz.

Noutro dos pavilhões da Facim está o moçambicano Pedro Sousa, sócio-fundador da empresa avícola ManMart. Tudo começou em Maputo, em 2002, com 500 pintos e 10 sacos de ração. Cinco anos depois, juntou-se a dois investidores portugueses, Rui Brandão e Luís Miguel, do grupo BAngels Agro (BAA), e o negócio nunca mais foi o mesmo, com aposta em equipamentos e produção.

“Encontrámos as pessoas certas, que sabem investir, e construímos de raiz uma farm de ovos. Neste momento estamos com uma capacidade de 50 mil ovos por dia e uma fábrica de ração também de raiz, com uma capacidade de 20 mil toneladas por ano”, conta, orgulhoso da parceria.

“Esta foi a melhor coisa que esta empresa encontrou, são estes dois sócios portugueses, que eu tenho muito carinho por eles, e já agora aproveito esta ocasião para dizer que, sim senhor, os nossos irmãos portugueses, quando se trata de investir, é a sério”, garante.

Hoje tudo acontece no distrito de Gurué, província da Zambézia, centro de Moçambique, com cerca de 150 trabalhadores, e quase 1.700 no universo das oito empresas do grupo BAA.

“Já não tem nada a ver com os 500 pintos de 2002. Estamos a falar agora de um projeto de produção de ovos que, até ao final deste ano, esperamos que cresça para 100 mil galinhas poedeiras”, explica Pedro Sousa.

Ali por perto, também do norte de Portugal, está Fernando Cruz. Há quase 40 anos na área dos equipamentos para madeira, a partir da Trofa, em 2011 apostou em Moçambique, com um sócio moçambicano, e lançou a WoodMaq.

“Foi numa altura em que as coisas estavam muito más em Portugal e viemos procurar aqui um bocadinho de mercado. Felizmente, na altura correu e tem vindo a correr, devagar. Tem-se vindo a crescer lentamente”, conta o sócio-gerente, no seu stand na Facim.

A empresa moçambicana dedica-se à distribuição de equipamentos para a indústria da madeira, carpintarias e serração.

“Já fiz alguns negócios na Beira, lá mais para o norte, onde está mais a madeira. Mas há, sim, perspetivas de se fazer alguma coisa”, conta.

Da Trofa vende para Espanha e Angola. Em Moçambique o negócio ainda é pequeno, mas as expectativas animam o empresário português.

“Há indicadores de a coisa querer começar a arrebitar um bocadinho. Lentamente, mas dá a sensação de querer mexer”, diz.

Com a WoodMaq, Fernando Cruz garante que a aposta em Moçambique faz sentido: “Acho que sim, é um país fantástico, acho que tem um monte de coisas para crescer, acho que é um país de oportunidades”.

A 61.ª Facim decorre desde segunda-feira no Centro Internacional de Feiras e Exposições de Ricatla, no distrito de Marracuene, província de Maputo, sendo considerada a principal montra de negócios de Moçambique.

Segundo dados oficiais, existem cerca de 500 empresas com capitais portugueses em Moçambique e mais de 1.100 empresas portuguesas exportadoras ativas neste mercado.

*** Paulo Julião (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Lina Cebola (fotos), da agência Lusa ***

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