Realizador francês Tony Gatlif voz da comunidade cigana morreu aos 77 anos

Paris, 04 set 2026 (Lusa) — O realizador francês Tony Gatlif, cujo cinema se debruçou sobre a cultura do povo cigano, morreu na quinta-feira, em Arles (França), com 77 anos, revelou hoje a família.

“A beleza dos seus filmes, a generosidade, a alegria, a poesia e o seu amor pela música ficarão connosco para sempre”, sublinhou a família em comunicado citado pela Agência France-Presse (AFP).

Segundo a agência noticiosa, Tony Gatlif morreu em Arles, na região de Camarga, no sudeste de França, na sequência de um problema de saúde, enquanto preparava o projeto de um “filme histórico”.

Tony Gatlif, que tem raízes ciganas, nasceu em 1948, em Argel, com o nome Michel Dahamani, mas viveu em França a partir dos anos 1960, tendo descoberto o teatro através do ator Michel Simon, depois de um período de vida de violência, criminalidade e errância.

No perfil de vida, a AFP lembra que no início da adolescência, depois de uma rusga policial, mudou o nome para Tony Gatlif, para evitar ser deportado para a Argélia. Passou por um centro de correção e foi enviado para a região de Camarga, profundamente ligada à cultura rom e cigana.

“Eu era violento, não se devia tocar em mim, era um rapaz mau (…), não dava ouvidos a ninguém; para mim, os adultos, todas as pessoas, eram inimigos. (…) A partir do momento em que pisei a Camarga comecei a ouvir, e isso deve-se ao respeito com que as pessoas falavam comigo, sem preconceitos”, disse em entrevista, em 2021.

Estreou-se como realizador em 1975 com “La tête em ruines”, seguindo-se “Corre, gitano” (1982), o primeiro filme no qual reflete sobre a condição social das comunidades ciganas.

“Latcho Drom” (1992), documentário sobre a música cigana, cujo título remete para uma expressão cigana que significa “Boa Viagem”, valeu-lhe um prémio no Festival de Cannes, que anos depois lhe atribuiria o prémio de realização pelo autobiográfico “Exílios” (2004).

Em 1997, “Gadjo Dilo” mereceu o Leopardo de Prata no Festival de Locarno, na Suíça.

“Indignados” (2012), “Djam” (2017) e “Tony Medina” (2021) são outros filmes de Tony Gatlif, que passaram em 2021 no Festival de Cinema de Lisboa LEFFEST, onde foi um dos convidados homenageados.

“Tony Gatlif tinha um gosto particular por caminhos alternativos, por fronteiras que se esbatem, por vidas às quais prestamos pouca atenção. Filmava a música, o movimento, o exílio e a liberdade com uma energia só dele”, escreveu a ministra da Cultura de França, Catherine Pégard, na rede social X.

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