Acidente/Elevador: Família de uma das vítimas mortais exige pedido formal de desculpas da Carris

Lisboa, 03 set 2026 (Lusa) — Uma das famílias das 16 vítimas mortais do descarrilamento do elevador da Glória, em Lisboa, exige um pedido formal de desculpas por parte da Carris, além de uma indemnização de 1 milhão de euros, revelou hoje o advogado.

Nuno Pinto Coelho de Faria, advogado da família de Isaque Adam, viúvo de Ana Paula Lopes, trabalhadora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que morreu no acidente do ascensor da Glória, justificou o pedido formal de desculpas por parte da Carris, empresa municipal responsável pelo equipamento de transporte público acidentado, com a obrigação de transportar as pessoas com segurança.

Assinala-se hoje um ano desde o descarrilamento do elevador da Glória, que ocorreu a 03 de setembro de 2025 e provocou 16 mortos e 24 feridos, sobretudo turistas estrangeiros.

“Não há dúvidas hoje de que a Carris, seja qual for a razão de ser, incumpriu a sua obrigação máxima, primeira, e a primeira coisa que devia ter pedido era desculpas, independentemente de apurar as culpas”, expôs, referindo que essa exigência consta do processo apresentado em tribunal “há uns meses” por Isaque Adam e pela filha.

Em declarações à agência Lusa, o advogado sustentou que “em Portugal temos a tendência a achar que pedir desculpa significa assumir culpa. Não, é apenas e só manifestar também, de uma forma sentida e verdadeira, a solidariedade para o mal que causámos a outro.”

Esse processo em tribunal pretende ainda reclamar uma indemnização de “1 milhão e 75 mil euros” para o viúvo Isaque Adam e para a filha do casal, porque o valor proposto pela seguradora da Carris “foi suficientemente insatisfatório” para se aguardar uma possível negociação, indicou Nuno Pinto Coelho de Faria, sem adiantar qual o montante, mas sublinhando que a diferença “é inconciliável”.

Além desta família portuguesa, o advogado representa ainda uma cidadã marroquina e que reside no Canadá Hind Higuernane, que ficou gravemente ferida e também perdeu o marido no descarrilamento.

No caso desta cidadã marroquina, “persiste uma negociação ainda extrajudicial”, adiantou Nuno Pinto Coelho de Faria, acrescentando que falta decidir os próximos passos.

“Não sabemos se iremos avançar imediatamente para o tribunal ou se até aguardarmos pela saída da acusação, que estará para breve. E depois, no âmbito da acusação, como o próprio Ministério Público até comunicou a vários lesados, faremos exercer o direito à indemnização no contexto do processo de crime, se até lá, enfim, não chegarmos a um consenso”, referiu.

O advogado reconheceu que, ao longo deste ano, houve falta de contacto com as vítimas e dificuldade no acesso à informação, tal como denunciado recentemente numa carta aberta de vítimas e familiares afetados pelo acidente.

No caso do viúvo Isaque Adam, segundo o advogado, foi preciso reclamar e exigir esse contacto, para que tal acontecesse, inclusive com uma audiência com o Presidente da República, António José Seguro, quando passava quase seis meses do acidente e “não se conseguia saber nada”.

“É perfeitamente percetível que as instituições, como a Câmara, a Carris e outras, não têm muitas vezes a capacidade de perceber como responder às necessidades reais dos afetados pelas tragédias […] no início, não sabiam propriamente o que fazer e pensavam que era apenas e só um problema de comunicação: comunicar fundos, comunicar apoios que, depois, na prática não existia nada e é mais importante, muitas vezes, até confrontar com a realidade quando ela não é boa, mas saber que é esta, do que dar falsas esperanças e falsas convicções”, declarou.

Quanto à demora das investigações do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) e do Ministério Público às causas e responsabilidades do acidente, prevendo-se conclusões até ao final do primeiro trimestre de 2027, Nuno Pinto Coelho de Faria realçou que estão a ser feitas perícias técnicas complexas, que exigem uma alocação de meios e que demonstra a importância de apurar o que aconteceu.

“Compreendemos, aceitamos e achamos que valerá a pena esperar […] gostaríamos que fosse mais rápido, mas sabemos o porquê de não ser e achamos que este não será seguramente um caso em que podemos lamentar, enfim, haver atraso”, disse.

O advogado revelou ainda que o viúvo Isaque Adam foi recebido na quarta-feira pelo presidente e pelo vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas (PSD) e Gonçalo Reis (PSD), respetivamente, em que, “com muita calma”, trocaram várias impressões sobre o acidente, reforçando que se percebeu que os próprios autarcas “também não sabiam lidar” com a tragédia, “porque felizmente não se vive todos os dias com isto”.

“Mas uma das principais formas de dar resposta, e que hoje as famílias salientaram, não é interferir na investigação, não é ter tratamento de privilégio, mas é não ter que procurar muito para encontrar apoio”, frisou, destacando a barreira de silêncio que enfrentam, ressalvando que tal tem vindo a melhorar progressivamente.

Relativamente a Hind Higuernane, Nuno Pinto Coelho de Faria contou que esta vítima do acidente ainda está a recuperar dos ferimentos, “o dano traumático é o maior” e tem uma limitação física “ainda significativa”, pelo que não esteve presente hoje na inauguração do memorial às vítimas, porém “mantém e acompanha tudo de uma forma presente, mas à distância”.

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