Moçambique entre três países de maior preocupação do El Niño na África austral – ONU

Maputo, 01 set 2026 (Lusa) – A ONU classificou Moçambique entre os três países da África austral de maior preocupação face ao El Niño, prevendo agravamento da seca, da fome e das deslocações, com 3,5 milhões de pessoas já em insegurança alimentar aguda.

Moçambique integra, juntamente com Madagáscar e Maláui, o grupo de países identificados pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) como estando em situação de “muito elevada preocupação” perante o fenómeno climático El Niño 2026/27, que se prevê atingir intensidade muito forte durante a principal época agrícola da região.

Segundo o relatório de preparação na África austral divulgado pela OCHA, existe uma probabilidade superior a 90% de o atual episódio de El Niño atingir intensidade muito forte até março de 2027 e uma probabilidade de 70% de os défices de precipitação entre outubro e dezembro ultrapassarem os registados em qualquer episódio de El Niño desde 1950.

No caso moçambicano, o Instituto Nacional de Meteorologia prevê um El Niño forte entre novembro de 2026 e abril de 2027, com precipitação abaixo da média no sul e centro do país e acima da média no norte.

A ONU alerta que os impactos mais imediatos deverão sentir-se no abastecimento de água, agricultura e meios de subsistência. A redução da precipitação e a diminuição dos níveis das barragens poderão limitar a disponibilidade de água para as famílias, a agricultura e a indústria, deixando particularmente vulneráveis as comunidades dependentes da agricultura de sequeiro.

O documento identifica como principais ameaças o risco de seca no sul do país, a continuação das deslocações em Cabo Delgado e Nampula, a subida de preços, cólera e perturbações na atividade agrícola.

A preocupação surge num contexto em que Moçambique continua a enfrentar vulnerabilidades acumuladas, com o OCHA a recordar que cerca de 3,5 milhões de pessoas enfrentam atualmente insegurança alimentar aguda, integrando um universo regional de 13,3 milhões de habitantes classificados na fase 3 ou superior da escala IPC.

Moçambique regista igualmente cerca de 662 mil deslocados internos, maioritariamente associados ao conflito armado em Cabo Delgado, situação que, segundo o relatório, aumenta a exposição das populações aos choques climáticos, à subida dos preços alimentares e à redução da assistência humanitária.

O documento recorda ainda que o país foi um dos mais afetados pelos fenómenos climáticos extremos da época chuvosa de 2025/26, com cerca de um milhão de pessoas foram afetadas por ciclones e inundações.

Aponta ainda o Zimbabué, Zâmbia e Angola como países de “elevada preocupação”. Lesoto, Namíbia, Essuatíni, Tanzânia e Botsuana integram o grupo de países que exigem vigilância devido à probabilidade de seca e calor extremo durante a próxima época agrícola.

O relatório recorda que a seca associada ao El Niño de 2023/24 foi uma das piores das últimas décadas, provocando perdas agrícolas generalizadas e levando mais de 29 milhões de pessoas a níveis graves de insegurança alimentar, enquanto cerca de 61 milhões necessitaram de assistência humanitária em 2024.

Apesar das melhorias após as colheitas de 2025/26, a região continua a enfrentar elevados níveis de vulnerabilidade, com cerca de 13,3 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda, 652 mil crianças sofrem de malnutrição aguda, 662 mil deslocados internos e aproximadamente 586 mil refugiados e requerentes de asilo distribuídos por vários países da região, refere o relatório.

A ONU alerta que a combinação de seca, temperaturas extremas, escassez de água, surtos de doenças e subida dos preços dos alimentos poderá inverter os progressos recentes. Contudo, dos 111,3 milhões de dólares (95,7 milhões de euros) previstos para 84 ações antecipadas de preparação em 13 países da África austral, cerca de 80% continuam sem financiamento, descrevendo os próximos três meses como críticos para reduzir o impacto humanitário do fenómeno.

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