
Maputo, 31 ago 2026 (Lusa) – Cem anos após ter nascido, nem o mural com o rosto aviva a memória dos residentes da Mafalala, em Maputo, onde a poeta e jornalista Noémia de Sousa cresceu, entre pedidos de iniciativas para manter vivo o legado.Â
João Filipe, canalizador e eletricista, nasceu no histórico bairro da Mafalala, no coração de Maputo, e sempre viveu ali, onde a poeta Noémia de Sousa cresceu, mas, mesmo visualizando o mural com o rosto da também jornalista, não tem memórias vivas sobre o nome da também conhecida como “mãe dos poetas moçambicanos”, apesar do centenário do seu nascimento.
“Por alto já ouvi falar, mas não conheço a história dela, já vi a passar na televisão algum historial, mas nunca acompanhei”, confessa João Filipe.
Puxando pela memória, confessa ter lembranças da história de José Craveirinha, outro poeta com o rosto estampado no mural, mas de Noémia pouco sabe. Esse é também um motivo que o leva a pedir programas e iniciativas locais para divulgar o nome da poeta, sugerindo a inclusão de mais textos seus nos programas escolares para eternizar a também jornalista.
“Penso que há mais pessoas que se inspiraram nela, se pudessem usar ela como exemplo, seguirem o formulário dela acerca das histórias que ela vinha contando (…) se tiver alguém com a mesma inspiração, fazendo mesmos ideais, livros sobre a história desse passado”, disse o morador.
O ‘grafiteiro’ moçambicano Bruno Mateus, conhecido como Shot.B, foi quem pintou o mural dos poetas, uma iniciativa do Museu Mafalala, mas para marcar o centenário de Noémia de Sousa, vai reabilitá-lo e reestruturá-lo, com o Museu a procurar fundos para materializar a iniciativa.
O mural foi pintado pela primeira vez em 2016 e restaurado em 2022 com a colocação de protetores e barreiras para evitar que os moradores ali urinassem: “com certeza vou dar um pouco mais de brilho e foco já na Noémia de Sousa, pois ela é a centenária desta vez. Os outros vão ter um tratamento ligeiramente normal, mas o dourado desta vez, a coroa passa do Craveirinha para a Noémia”, diz o artista.
Esta obra é de valor histórico para Shot.B, que encontra em Noémia a moçambicanidade, radicalismo e atitude, sentindo-se orgulhoso por trabalhar numa obra deste género.
“Este é o bairro que a viu nascer, então, muita gente, muitas não conhecem a história deste grande monstro das artes moçambicanas, então para mim é mais do que necessário, é razão mais do que suficiente para pintar a poesia criada por Noémia”, diz o artista.
Quando se fala do esquecimento de Noémia, o ‘grafiteiro’ acredita que o mural vai manter viva a sua memória. “Acho que é eternizar o legado deixado por esses artistas conhecidos e não conhecidos por esta nova sociedade. Nós agora nos encontramos numa era digital em que as pessoas não se baseiam mais em livros, não se ensina muito a história, a nossa história propriamente dita, nas escolas, como antigamente”, diz.Â
E conclui: “estamos nesta era digital em que as crianças e as pessoas pegam os elementos e as ferramentas, investigam e vão para onde eles querem, atravessam limites indesejados ou desejados para o seu agrado, então esta é uma forma de eternizar, de continuar com o legado, de dar a conhecer e dar longevidade à s obras feitas por essa artista”.
Junto ao mural, na habitual azáfama da Mafalala, passa também Ismael Juma, morador do bairro. Confessa ter noção de quem foi Noémia, mas reconhece que a maioria no bairro não tem muita informação sobre a poeta, admitindo pouca divulgação no seu ‘berço’.Â
“Falar de Noémia é falar de uma geração que não é esta em que estamos nós”, afirma, acrescentando: “Só nos recordamos dela quando chegamos no ensino secundário em que está ali o poema (que) é só para um certo nÃvel de pessoas, então acho que essa memória tem a ver mais com gerações”, aponta.Â
Juma elogia que se tenha pintado, há já uma década, um mural que recorda mais a literatura do que combatentes da luta de libertação, referindo que estas iniciativas devem ser replicadas em todo o bairro para avivar a memória da comunidade sobre a importância que estes nomes tiveram na libertação de Moçambique.Â
“São estas memórias que devem ser consciencializadas aos mais novos, mas acho que este é um trabalho que está sendo feito já e é preciso que se leve à escola secundária”, aponta.
Nascida em 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques, Noémia de Sousa é hoje considerada a “mãe dos poetas moçambicanos”. Trabalhou mais tarde em Lisboa na Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP), que esteve na origem da atual agência Lusa. Iniciou-se no jornalismo em 1956 e, após a independência, regressou a Lisboa, em 1975, onde trabalhou na área noticiosa.
Faleceu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal, deixando como obra de referência o livro “Sangue Negro”.
*** Pretilério Matsinhe (texto), Fernando Cumaio (vÃdeo) e Lina Cebola (fotos), da agência Lusa ***
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