
Lisboa, 22 ago 2026 (Lusa) — Dezenas de pessoas da diáspora guineense protestaram hoje em Lisboa contra o referendo à revisão da Constituição na Guiné-Bissau, marcado para 30 de agosto, que veem como uma forma de “branquear uma situação de golpe de Estado”.
Convocado por ativistas da comunidade guineense em Portugal, o protesto foi realizado hoje à tarde no Marquês de Pombal, seguindo em cortejo até à praça dos Restauradores, acompanhado por palavras de ordem como “abaixo o referendo”, “abaixo os golpistas” e “abaixo os assassinos”, entre várias bandeiras nacionais da Guiné-Bissau e do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde).
“Estamos aqui para nos levantar contra um referendo que sabemos ter sido encomendado por este poder político instalado à força desde o golpe de Estado do dia 26 de novembro de 2025 na Guiné-Bissau”, afirmou à agência Lusa Mariano Quade, 51 anos, que se apresenta como ativista da sociedade civil guineense residente em Portugal.
Na base do protesto está o golpe militar realizado no final do ano passado, que resultou na criação de um Conselho Nacional de Transição e na redação de uma nova Constituição – com mais poderes destinados ao Presidente da República e menos lugares no parlamento -, a ser submetida a uma consulta popular que os principais partidos guineenses tencionam boicotar.
“Este referendo não faz qualquer sentido, primeiro porque é organizado por golpistas, segundo porque não integra a sociedade civil, não integra os partidos políticos, não envolve a sociedade em si, para uma reflexão e para uma decisão clara sobre o seu futuro”, segundo Mariano Quade, que lamenta igualmente que a diáspora guineense esteja proibida de votar.
O ativista adverte também para um processo “sem fiscalização”, o que o torna “completamente viciado para branquear uma situação de golpe de Estado”.
Ao mesmo tempo, questiona até que ponto a própria organização regional CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) “não estará comprometida com esta situação lamentável”.
Em oposição, elogiou Portugal, pelo exercício de “uma diplomacia muito coerente com aquilo que é a legalidade, o respeito pela Constituição, pelos princípios e valores democráticos”, esperando que este exemplo seja seguido pela restante comunidade internacional.
A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) também tem dado “um sinal bastante positivo”, ao suspender a Guiné-Bissau da organização, o que o faz acreditar num “alinhamento de posições que dá alguma esperança em relação ao futuro e em relação ao retorno à normalidade constitucional”, embora vários manifestantes critiquem que a comunidade internacional “ainda não fez o suficiente”.
O golpe ocorreu em vésperas da data prevista para a divulgação dos resultados das eleições gerais, realizadas em 23 de novembro de 2025, às quais o então Presidente, Umaro Sissoco Embaló procurava ser reconduzido, ainda que a oposição o acuse de cumplicidade com o autoproclamado Alto Comando Militar e de simular a sua própria detenção temporária.
Tanto Sissoco Embaló como o principal candidato de oposição, Fernando Dias da Costa, reivindicaram vitória na eleição presidencial, tendo este último procurado refúgio na embaixada da Nigéria, onde permaneceu até ao início do ano.
O presidente do Parlamento, Domingos Simões Pereira, antigo primeiro-ministro e líder do PAIGC, foi detido e entretanto libertado para tratamento médico em Portugal, mas está proibido de exercer atividades políticas.
“Sabemos que os militares da Guiné-Bissau estão a mando de uma insurreição com Embaló”, acusou Mariama Seidi Dias, 51 anos, presidente da comissão política do PAIGC em Portugal, que também compareceu no protesto de hoje em Lisboa.
A dirigente política considera que o referendo está integrado num “golpe palaciano”, ao promover um processo “não inclusivo” e ao deixar os partidos políticos e a diáspora guineense “simplesmente encostados”, enquanto relata casos de compra de cartões de eleitores e eliminação das listas de potenciais opositores à aprovação da revisão constitucional.
“É isso que nos traz aqui e é isso que nos vai continuar a trazer-nos à rua sempre, porque queremos uma Guiné livre, uma Guiné independente pela qual lutaram os nossos heróis”, declara, à frente de uma grande bandeira do PAIGC no centro da praça Marquês de Pombal e entre várias imagens de Amílcar Cabral, fundador do partido histórico guineense.
Atualmente, os guineenses estão “sem voz”, condena Mariama Seidi Dias, descrevendo que aqueles que voltam ao país têm de permanecer de “boca calada” e sob ameaça de serem perseguidos, espancados ou até mortos, tal como ocorreu em casos recentes atribuídos a motivação política e hoje também homenageados na capital portuguesa.
A marcha de hoje atraiu a Lisboa guineenses residentes em França e Reino Unido, como Dajló Ká Dedsp, um pseudónimo que usa como nome de luta, à semelhança dos antigos guerrilheiros do PAIGC, e que incorpora as iniciais de Domingos Simões Pereira, de quem se identifica como seu braço direito.
“Eu também sou guerrilheiro. Estou a lutar com unhas e dentes para derrubar o governo na Guiné-Bissau. E vou conseguir”, afirma este técnico informático de 55 anos residente em Londres e que viajou expressamente para participar no protesto de hoje e Lisboa, prometendo voltar a fazê-lo em qualquer manifestação que seja convocada na Europa.
Dajló Ká Dedsp acredita que o apelo para o boicote vai funcionar e “ninguém vai votar no referendo”, porque “o povo está cansado. O povo está sacrificado” na Guiné-Bissau, um país que diz estar tomado pelo tráfico de droga e onde “não há direito à vida humana na”, elencando de seguida nomes de ativistas e artistas mortos em resultado da violência política.
“Sou contra o tráfico de droga, sou contra o presidente golpista e sou contra os governantes da Guiné-Bissau porque não são vencedores das eleições”, reforça este apoiante de Fernando Dias Costa, que considera ser “o Presidente legítimo”, adicionando ainda outro motivo para levantar a sua voz: “Eu vivo em Londres, tenho tudo na vida. Lá na Guiné não tem nada”.
O referendo nacional sobre a nova Constituição ocorrerá cerca de três meses antes das novas eleições gerais, presidenciais e legislativas, marcadas para 06 de dezembro.
Nos últimos dias, o PAIGC, o Partido da Renovação Social (PRS) e a Convergência Nacional para a Liberdade e o Desenvolvimento da Guiné-Bissau (COLIDE-GB) apelaram aos seus militantes e simpatizantes para boicotarem a consulta proposta pelo Conselho nacional de Transição.
* A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto de 2025 após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância *
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