
Lisboa, 22 ago 2026 (Lusa) – A exigência intransigente de Noémia de Sousa em publicar a sua obra primeiro em Moçambique e a complexa operação adiaram por décadas a edição do livro “Sangue Negro”, cuja publicação só avançou em 2001, revelaram os investigadores envolvidos no processo.
Segundo a investigadora Fátima Mendonça, a poesia de Noémia de Sousa (1926-2002) traduz “uma visão em que se combina a perspetiva de ser negro com a situação do ser negro enquanto ser colonizado”, marcada pelo retrato fiel dos “tipos sociais moçambicanos” da época, desde os trabalhadores do cais aos periféricos e às prostitutas.
Num tempo em que o crivo do “lápis azul não parava”, os poemas da “Mãe dos poetas moçambicanos” não eram notados pela censura, pois o que interessava ao Estado português era a autora, contou Fátima Mendonça, explicando que “a PIDE estava mais interessada nela” devido à sua participação em grupos com ações antissistema.
O professor e crítico literário Francisco Noa acrescentou que a censura, que “era muito severa nos anos 40”, transformou-se num incentivo para os poetas, pois tornou-se “numa espécie de maior capacidade de elaboração poética para que as coisas não fossem translúcidas, tão imediatamente percetíveis, sobretudo pelo regime”.
Entre os 46 poemas do livro “Sangue Negro”, “Deixa passar o meu povo” tornou-se, em África, “uma espécie de bandeira de libertação africana”, sublinhou Fátima Mendonça.
Segundo o escritor e editor Nelson Saúte, a ideia de publicar o livro era antiga.
Ao longo dos anos, figuras como o estudioso que “introduziu em Portugal o estudo das literaturas africanas”, Manuel Ferreira, o francês Michel Lappin, o antigo secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) Rui Nogar, o jornalista Calado da Silva e o escritor José Leite Vasconcelos tentaram, sem sucesso, demover a autora da sua recusa em publicar.
“Ela dizia ao Manuel Ferreira: ‘Muito bem, eu não me importo de publicar em Portugal, mas primeiro tem que ser publicado em Moçambique’. E pronto, e foi aí que eu, com o Nelson Saúte, com o Francisco Noa, começámos a pensar, com o Júlio Navarro, então em editar o livro”, recordou Fátima Mendonça, salientando que a publicação foi “um processo longo”.
A concretização do projeto editorial acabou por avançar através de uma equipa constituída por Fátima Mendonça, Nelson Saúte, Francisco Noa e Júlio Navarro, na altura editor da AEMO.
“Nós fizemos a edição. A Fátima Mendonça, além de organizar e fixar o texto, escreveu um ensaio importante para o estabelecimento da obra dela. O Francisco Noa, que também colaborou por indicação dela, fez um texto explicando a obra”, detalhou Nelson Saúte, destacando ainda a inclusão de um depoimento de João Mendes, companheiro de jornada da escritora em 1949, que deu origem a “um caderno importante – ‘Os Poemas de João'”.
O livro “Sangue Negro” foi publicado em 2001 pela AEMO, sendo depois reeditado por Nelson Saúte em Moçambique e, mais tarde, lançado no Brasil pela editora Kapulana. Em outubro de 2024, a obra ganhou uma edição em francês, com o título ‘Sang Noir’, publicada pela editora ‘Project’îles’.
Para a publicação da obra, Noémia de Sousa fez exigências aos três, como que “o livro fosse editado primeiro em Moçambique”, salientou Fátima Mendonça.
No entanto, a obra continua sem edição própria em Portugal, sendo que os especialistas apontam para a falta de interesse.
Para Francisco Noa, além do interesse, a ausência do título no mercado português prende-se com a lógica do lucro editorial.
“Autores como estes são considerados como autores que provavelmente não trarão esse retorno”, concluiu, lamentando o desconhecimento do público português face ao papel de Noémia de Sousa, cuja geração “tem estado a influenciar toda a trajetória da literatura moçambicana até os nossos dias”.
Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida como Noémia de Sousa, que assinala em 20 setembro o centenário do seu nascimento, morreu em 2002, em Cascais, Lisboa.
A jornalista, tradutora e poeta moçambicana é considerada uma das figuras mais marcantes da literatura moçambicana e do combate anticolonial.
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