Calor intenso antecipa vindima que no Alentejo começou em julho

Lisboa, 15 ago 2026 (Lusa) — Os períodos de calor intenso que se têm sentido no país levaram a vindima, cujo início tradicionalmente tinha lugar em setembro, a ser antecipada em algumas regiões, como no Alentejo, onde as colheitas começaram em julho.

“A data da vindima varia bastante entre regiões, castas e parcelas […]. Ainda assim, temos observado uma tendência de antecipação em várias regiões, associada, sobretudo, ao aumento das temperaturas e à maior frequência de períodos de calor intenso, que aceleram a maturação da uva”, referiu o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, em resposta à Lusa.

No Douro, verificou-se uma antecipação das vindimas na ordem de uma a duas semanas.

Já nas regiões mais quentes, como o Tejo e o Alentejo, a colheita começou durante as últimas semanas de julho.

Contudo, a associação lembrou que mais do que manter a data da colheita é importante colher cada parcela quando “existe o equilíbrio adequado entre maturação, acidez, açúcar e perfil aromático”.

Frederico Falcão disse que as alterações climáticas obrigam a uma monitorização da vinha cada vez mais rigorosa, bem como a decisões mais rápidas.

Por outro lado, é necessário fazer uma utilização mais eficiente da água, uma gestão criteriosa do solo e ter uma maior precisão na escolha na data da vindima e de práticas que permitam proteger os cachos.

“Se há uns anos era prática comum deixar os cachos mais expostos para que a maturação fosse mais rápida, hoje faz-se o contrário, deixando os cachos protegidos pela folhagem das videiras. As soluções dependem de cada região e de cada exploração”, explicou.

Segundo dados da ViniPortugal, o país conta com mais de 250 castas autóctones identificadas, com comportamentos diferentes face ao calor, à seca e ao stress hídrico.

Assim, conforme apontou, em algumas regiões poderá fazer sentido aumentar progressivamente a utilização de castas mais tardias ou mais resistentes ao calor e à falta de água.

O secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, disse à Lusa que, em média, “nos últimos 15 anos”, as vindimas têm lugar cada vez mais cedo devido às alterações climáticas, o que também levou à adaptação da tecnologia e do conhecimento agronómico e enológico.

“[…] Apesar de as vindimas terem, em média, recuado no calendário, não recuaram na qualidade do produto, aliás, antes pelo contrário”, assinalou.

Luís Mira sublinhou que os métodos de produção e de vinificação permitem hoje controlar melhor a evolução da fruta, ter melhores cuidados durante o período de produção e assim evitar pragas e doenças.

“A tecnologia hoje é transversal, da vinha até ao copo do consumidor. A procura por vinhos menos alcoólicos, a inversão do consumo de vinhos brancos e rosés, que tem aumentado, a menor procura por vinhos licorosos e fortificados são mais resultado das escolhas dos consumidores do que das alterações climáticas”, acrescentou.

Do lado das empresas, a Quinta de Lemos, que produz vinhos do Dão, confirmou esta nova realidade, com a vindima a ser antecipada entre duas a três semanas face à média dos últimos anos.

Com isto, segundo o enólogo da Quinta de Lemos Hugo Chaves, é preciso reorganizar a mão-de-obra, sobretudo, numa altura em que são necessários mais trabalhadores.

A falta de mão-de-obra tem sido também sentida pela Vicentino Wines, na Costa Vicentina, e na d’A Cooperativa, na Ilha do Pico.

“Através de empresas de trabalho temporário conseguimos, mas a capacidade e qualidade de trabalho é cada vez menor”, apontou o enólogo das duas empresas, Bernardo Cabral.

Já no que se refere à vindima na Vicentino Wines e na d’A Cooperativa está a decorrer em linha com a média dos anos anteriores.

“O ano vitícola 2025/2026 está a acontecer sem sobressaltos. A pluviosidade registada levou a uma boa disponibilidade de água, muito importante para o desenvolvimento da planta. A primavera e o verão estão a ser relativamente amenos permitindo um ótimo ritmo de maturação da uva. No entanto, temos vindo a adaptar algumas práticas culturais como enrelvamentos na entrelinha para reter humidade no solo, gestão de rega através de equipamentos e programas que nos dão informação precisa sobre as necessidades da planta”, precisou.

Também nas uvas de mesa, a colheita está a decorrer dentro do habitual calendário e sem sobressaltos.

Na Frutalmente, que detém a Dona Uva, espera-se uma “colheita normal, com produções ideais para a cultura”, esperando-se assim uma campanha superior à do ano passado, com cerca de três milhões de quilogramas (kg).

Ainda assim, o diretor executivo da Frutalmente, Mário Rodrigues disse à Lusa que tem sido necessário adaptar as condições de produção devido às alterações climáticas, destacando-se, por exemplo, a gestão fitossanitária que “é cada vez mais exigente pela instabilidade climática e pela maior pressão de doenças”.

Para mitigar este contexto, a empresa tem cerca de 40% da produção feita em sequeiro, reduzindo a dependência da água, e tem um sistema de cachos em troncos mais altos, aumentando a produção e a rastreabilidade da colheita.

Já a escassez de mão-de-obra é também um problema para a Frutalmente que, nos meses de campanha, recorre à subcontratação de empresas de trabalho temporário e de prestação de serviços, de modo a satisfazer as necessidades de colheita e a garantir o fornecimento dos clientes.

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