
Moscovo, 14 ago 2026 (Lusa) — O partido russo Yabloko, único contra a guerra na Ucrânia, recorreu hoje para o Supremo Tribunal para reverter a exclusão das eleições legislativas de setembro.
O lÃder da formação liberal, Nikolai Ribakov, apresentou pessoalmente o recurso, que foi admitido pelo Supremo, que deverá emitir uma decisão na próxima semana, disse o tribunal em comunicado.
Tal como comunicado anteriormente, o Supremo, que rejeitou em 10 de agosto o registo das listas eleitorais do Yabloko, deverá analisar o recurso na segunda-feira.
“Ficou inequivocamente demonstrado que não existia nem o mais pequeno motivo, em circunstância alguma, para excluir o Yabloko do boletim de voto. Tudo foi uma invenção”, afirmou Ribakov à chegada ao tribunal, acrescentando que o partido pretende demonstrar a sua inocência por todos os meios ao seu alcance “no âmbito da legislação russa”.
De acordo com diversos canais na rede social Telegram, vários jovens que se deslocaram para apoiar os opositores foram detidos e levados para uma carrinha policial.
Ribakov adiantou que vai apresentar uma ação contra o partido ultranacionalista Rodina (Pátria), que denunciou o Yabloko ao Supremo por, entre outras razões, financiamento estrangeiro e violação dos direitos de autor.
“Em defesa da nossa reputação profissional, e não apenas contra a Rodina, mas contra todo o partido que se permita difamar-nos”, explicou à imprensa, de acordo com a agência de notÃcias RIA Novosti.
A Comissão Eleitoral Central (CEC) tinha apoiado a acusação de financiamento irregular, invocando supostos dados secretos na posse do regulador financeiro russo, Rosfinmonitoring, que elabora as listas de extremistas e terroristas na Rússia.
Quanto ao financiamento estrangeiro, o Yabloko respondeu que o único dinheiro transferido para o partido foram 16.900 rublos, cerca de 173 euros, por parte de sete cidadãos russos, o que não é proibido por lei.
O partido alegou ter já devolvido esse dinheiro aos doadores, pelo que não pode ser motivo para a exclusão de eleições.
A decisão ocorreu depois de os principais lÃderes dos partidos leais ao Kremlin condenarem o escasso apoio do Yabloko ao esforço militar e de a oposição no exÃlio, incluindo Yulia Navalnaya, ter apelado ao voto nesse partido.
Coincidindo com o recurso do Yabloko, o Ministério Público russo pediu hoje 12 anos de prisão para um dos dirigentes históricos da formação, Lev Shlosberg, que está a ser julgado na região noroeste de Pskov.
O opositor russo, que condena a presença russa na Ucrânia desde 2014, é acusado de reincidência na desacreditação e divulgação de informações falsas sobre o Exército na Ucrânia.
“O Estado de direito foi totalmente destruÃdo durante este processo. As normas da Constituição, do Código Penal e do Código de Processo Penal foram flagrantemente violadas”, afirmou Shlosberg durante a audiência.
Pelo menos oito membros do Yabloko estão presos, aos quais se somam 14 inabilitados depois de terem sido declarados extremistas.
Embora não possa participar nas eleições de 20 de setembro através de listas partidárias, o Yabloko ainda pode concorrer por cÃrculos eleitorais em várias dezenas de regiões deste paÃs.
O Yabloko é o único partido que, desde a queda da antiga União Soviética, se opôs a todas as guerras em que a Rússia esteve envolvida, na Chechénia (1994), na SÃria (2015) ou na Ucrânia (2022).
Formação liberal ao estilo ocidental, o Yabloko, que significa maçã em russo, tem defendido a economia de mercado, os direitos humanos e o Estado de direito, o que o colocou em confronto com os governos liderados por Boris Yeltsin e Vladimir Putin.
A formação polÃtica foi fundada em 1993, dois anos após a desintegração da União Soviética, como uma aliança de democratas de diversas tendências, desde democratas-cristãos a social-democratas, verdes e feministas.
Grigori Yavlinski, lÃder histórico do Yabloko, é um economista nascido na Ucrânia que fundou o partido juntamente com outros reformistas de renome da época: Vladimir Lukin e Yuri Boldirev.
O partido desempenhou um papel preponderante na polÃtica russa durante a sua primeira década, perÃodo em que sempre teve representação parlamentar na Duma, embora atrás dos nacionalistas e dos comunistas.
O Yabloko perdeu peso polÃtico a partir da chegada de Putin à Presidência, em 2000. Deixou de ter um grupo parlamentar em 2003 e ficou sem representantes na assembleia quatro anos mais tarde.
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