
Porto Santo, Madeira, 08 ago 2026 (Lusa) — Pedro Dias foi o primeiro viticultor do Porto Santo a produzir em modo biológico uvas listram, uma das castas brancas mais caras e apreciadas internacionalmente, e transformou a Quinta do Pilha Gatos num exemplo de sucesso do setor na Madeira.
“Comecei do zero. Adquiri as parcelas [para cultivar]. Não foi que alguém me deixasse ou que herdasse. Foi um gosto que eu já tinha do passado”, disse à agência Lusa, acrescentando: “Decidi investir na viticultura e tem sido sempre a subir, e vai continuar a subir.”
Natural e residente no Porto Santo, Pedro Dias, 37 anos, mostra-se confiante no futuro da agricultura naquela ilha, sobretudo ao nível das vinhas, com destaque para as castas moscatel, caracol e listrão, esta considerada a rainha das castas brancas.
“No ano passado, da minha parte, entreguei na adega 7.148 quilos de uvas, mas no total de viticultores do Porto Santo foram entregues cerca de 17 toneladas, só na Justino’s [empresa de vinhos madeirense]”, disse, indicando que a sua propriedade — a Quinta do Pilha Gatos — ocupa atualmente uma área de 3,5 hectares e a produção rendeu cerca de 33 mil euros em 2025.
As castas brancas são as que melhor se adaptam ao clima e ao solo do Porto Santo, entre as quais se destaca o listrão, conhecido internacionalmente como palomino fino, a uva mais cara no mercado europeu, adquirida ao produtor a 5,70 euros ao quilo no ano passado.
“Tenho aqui, nesta área, um misto de terra, mistura de terra com areia, e areia pura. Ou seja, eu tenho que ter aqui três cuidados”, disse, explicando ainda: “Tenho de adubar um pouco a terra, tenho de adubar um pouco mais a que está no meio, e tenho de adubar fortemente a areia.”
Pedro Dias foi o primeiro viticultor biológico certificado do Porto Santo e, como tal, só utiliza adubo biológico, tendo sido também o primeiro a produzir listrão nessa condição. Por outro lado, conta com o apoio das autoridades regionais madeirenses ao nível do controlo fitossanitário regular das vinhas.
A Quinta do Pilha Gatos — nome que decorre da alcunha pela qual era conhecido o seu avô — localiza-se no sítio das Cancelas, contíguo ao Aeroporto do Porto Santo, uma zona identificada como a melhor para a produção de uvas.
“É um sítio mais baixo, mais quente, mais protegido, através do talude do aeroporto. É o coração das vinhas, a área maior e melhor para a produção destas castas brancas”, explicou, apontando em redor, onde os ‘muros de croché’ — muros de pedra que delimitam as parcelas — incutem um especial encanto à paisagem.
O viticultor considera, por isso, que as autoridades deviam implementar uma “política mais agressiva” na fiscalização de aspetos relacionados com a proteção e a preservação da paisagem.
“Eu desmontei as paredes para fazer a limpeza do terreno e preparar para novas vinhas e vou reconstruí-las com a mesma pedra”, disse, lamentando que outros não façam o mesmo.
Pedro Dias utiliza dois métodos de cultivo, uma parte em espaldeira, outra no chão.
“A vinha de chão tem de ser estacada para evitar que o cacho esteja em contacto com a terra e para ter maior arejamento, caso contrário a uva queima e apodrece”, indicou.
Este é método tradicional de produção de uvas no Porto Santo.
“Tenho algumas videiras de chão muito antigas, com 70 anos e 80 anos”, revelou.
Já em espaldeira a produção é menor, mas também os custos com a mão-de-obra são mais baixos. Pedro Dias trabalha sozinho durante uma grande parte do ciclo da vinha, precisando de ajuda sobretudo na época da poda e enxertia, entre fevereiro e março, altura em trabalham consigo seis pessoas, e depois no período da colheita, em setembro.
“Aí é mais à base da família”, até porque é grande – o seu avô teve 14 filhos e mais de 60 netos.
A escassez de água sempre foi um problema para a agricultura no Porto Santo, mas nos últimos anos a empresa pública ARM — Águas e Resíduos da Madeira levou a cabo vários investimentos ao nível do abastecimento público e do sistema de rega que contribuíram para o incremento e a modernização do setor, por exemplo, com a introdução da rega gota a gota.
“A agricultura, bem trabalhada, dá”, afirmou Pedro Dias, vincando, no entanto, que, no seu caso, é uma atividade em ‘part-time’. Ainda não consegue suportar os investimentos e os custos de produção com o rendimento que obtém, mesmo contanto com os subsídios do IFAP — Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas e com os apoios da empresa Justino’s, que fornece adubos, enxofre e arame para vinhas em espaldeira.
“Tenho que ter outro emprego, para aguentar”, vincou.
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