Migrações: Utilização maliciosa do espaço digital na base da crise em Ceuta

Lisboa, 04 ago 2026 (Lusa) — O Ministério do Interior marroquino atribui a entrada ilegal de dezenas de milhares de pessoas nas cidades espanholas de Ceuta e Melilla à “conjugação de vários fatores”, destacando-se “a utilização maliciosa do espaço digital”.

Num comunicado divulgado no domingo a que a agência Lusa teve hoje acesso, após contactar a embaixada marroquina em Lisboa, o Ministério frisa que os acontecimentos que levaram 72.000 pessoas a passar a fronteira com Ceuta (70.000 regressaram entretanto — registaram-se também 75 mortes) “não resultaram de circunstâncias fortuitas nem de um movimento espontâneo”.

“Pelo contrário, a utilização maliciosa do espaço digital, a divulgação de informações falsas, a ação de redes de tráfico de seres humanos, bem como interpretações erradas de determinadas disposições jurídicas e administrativas, fizeram crer que seria possível aceder facilmente ao espaço europeu sem consequências jurídicas”, lê-se no comunicado.

Marrocos garante que as autoridades públicas do país adotaram uma abordagem preventiva e global assente na deteção precoce dos diferentes sinais, no reforço dos níveis de vigilância e mobilização, no aumento da preparação dos serviços de segurança e das autoridades territoriais, bem como na intensificação dos controlos terrestres e marítimos.

“Esta abordagem permitiu controlar a situação, proteger vidas humanas, preservar a ordem pública e garantir a segurança das fronteiras, no estrito respeito pela lei e pelo princípio da proporcionalidade na intervenção”, refere Rabat, que, como novidade, avança que 1.135 migrantes que conseguiram entrar em Melilla foram imediatamente devolvidos” à procedência.

No comunicado, em que não existe qualquer referência a uma eventual retaliação de Marrocos face à postura de Espanha em relação ao Saara Ocidental, questão levantada por vários analistas internacionais, o Governo marroquino refere que as recentes decisões das autoridades judiciais espanholas, que limitaram a possibilidade de aplicar o procedimento de devolução imediata a determinados migrantes em situação irregular intercetados no mar, “desempenharam um papel particular”.

“Estas decisões, associadas a interpretações erradas e à divulgação de informações enganosas, reforçaram, junto de alguns candidatos à migração, a ideia de que seria possível evitar a devolução imediata. Tal favoreceu o aparecimento de um modo de atuação que privilegia a travessia a nado, considerada por alguns como oferecendo maiores possibilidades de evitar um regresso imediato”, frisa.

Quem regressou a Marrocos pôde fazê-lo “no âmbito da cooperação existente com a parte espanhola conforme os procedimentos em vigor”.

“Os postos de passagem foram, assim, abertos às pessoas que pretendiam regressar voluntariamente, o que contribuiu para um regresso gradual da situação à normalidade”, acrescentou ministério marroquino, sublinhando que o Ministério Público abriu inquéritos judiciais relativos ao conjunto dos atos e factos ligados aos acontecimentos, visando apurar todas as circunstâncias, identificar as responsabilidades e retirar as devidas consequências jurídicas”.

Para Rabat, a gestão do fenómeno migratório só pode enquadrar-se numa “abordagem global baseada na responsabilidade partilhada, na solidariedade efetiva e na partilha de encargos”, pelo que o Ministério do Interior sublinha que Marrocos “continuará a ser […] um parceiro fiável e responsável, empenhado no reforço da cooperação e da coordenação internacionais no combate à migração irregular e ao tráfico de seres humanos”. 

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