Ex-guerrilheiros da moçambicana Renamo notificados por invadirem sede

Maputo, 29 jul 2026 (Lusa) — Pelo menos cinco ex-guerrilheiros da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) que contestam a liderança de Ossufo Momade foram notificados hoje pela procuradoria-geral da República no âmbito de um processo sobre alegada invasão da sede nacional do partido.

As notificações resultam de uma queixa apresentada pela própria Renamo e foram entregues pela procuradoria de Kampfumo, na cidade de Maputo, aos membros do grupo que, há vários meses, contesta a direção liderada por Ossufo Momade, e em maio de 2025 chegaram a ocupar a sede nacional, na capital.

Arone Lavanhane, um dos antigos guerrilheiros visados, considerou que o processo pretende travar o movimento de contestação interna e garantiu que as ações vão prosseguir.

“As delegações pertencem ao partido Renamo (…). Esta é uma forma de ameaçar e fazer chantagem para que outras pessoas tenham medo”, disse Arone Lavanhane, aos jornalistas à saída da Procuradoria.

Assegurou que este grupo não pretende abandonar as ocupações de outras sedes, nem suspender a expansão do movimento para outras províncias.

“Vamos continuar, porque este partido, essas delegações, não são do Ossufo Momade, pertencem à Renamo (…), até as províncias que ainda não ocupámos iremos ocupar”, declarou.

Também ouvido pelos jornalistas, o segundo vogal da autodesignada – por estes contestatários – comissão de gestão do partido, Mochador Machava, rejeitou a acusação de invasão, alegando que os visados são membros da Renamo e têm direito de permanecer nas instalações do partido.

“Dizem que nós invadimos a sede nacional. Eu sou membro, pago cotas para funcionamento daquela sede nacional. E não só tenho cartão como membro do partido, como faço trabalho do partido (…) Eles é que devem provar onde está o crime”, disse.

Machava reiterou que o grupo manterá a contestação à atual liderança, apesar do processo desencadeado pela Procuradoria: “Vamos avante até vencermos”.

Em maio de 2025, antigos guerrilheiros foram retirados pela Unidade de Intervenção Rápida (UIR) da sede nacional da Renamo, em Maputo, depois de ocuparem o edifício em protesto contra a direção do partido. Numa operação, a polícia recorreu a gás lacrimogéneo e disparos para retirar os ocupantes, levando, sob detenção, cerca de meia centena de pessoas que estavam no interior.

No domingo, o histórico da Renamo António Muchanga defendeu a saída de Ossufo Momade da liderança, acusando-o de silêncio perante questões como o conflito em Cabo Delgado, o garimpo ilegal e os ataques xenófobos contra moçambicanos na África do Sul. A direção da Renamo ainda não reagiu às declarações dos contestatários nem às notificações efetuadas pela Procuradoria.

A Renamo enfrenta há vários anos conflitos internos marcados pela contestação à liderança de Ossufo Momade, contestação que se agravou após as eleições gerais de outubro de 2024, nas quais Momade obteve 6% dos votos na corrida presidencial, o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pela Renamo. O partido perdeu igualmente representação parlamentar e deixou de liderar a oposição, passando de 60 deputados em 2019 para 28 assentos nas eleições de 2024.

Ossufo Momade, de 65 anos, assumiu a presidência da Renamo em 2018, após a morte de Afonso Dhlakama, e foi reeleito em maio de 2024 num processo contestado internamente. O dirigente afirmou posteriormente que não voltaria a candidatar-se à liderança do partido.

A Renamo realizou um Conselho Nacional em outubro de 2025, mas os ex-guerrilheiros consideraram o encontro uma “manobra dilatória” destinada a manter Ossufo Momade na liderança, defendendo agora a realização de um Congresso para eleger uma nova direção antes do próximo ciclo eleitoral.

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