Secretário-geral da ONU em Chipre para relançar o diálogo sobre a ilha dividida

Nicósia, 28 jul 2026 (Lusa) — O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que chegou durante a noite a Chipre, iniciou hoje reuniões separadas com os líderes rivais da ilha dividida, para avaliar a possibilidade de retomar as negociações.

Nove anos após o fracasso da última tentativa de paz entre a República de Chipre e a parte norte, sob ocupação turca, António Guterres aterrou “à meia-noite”, naquela que é a primeira visita de um secretário-geral da ONU desde a de Ban Ki-moon, em 2010.

“Acabei de aterrar em Chipre para expressar o meu compromisso em apoiar as comunidades cipriotas na procura de uma solução abrangente e duradoura para a questão cipriota. A ONU não pode impor a paz. Só os cipriotas, com os seus líderes, a podem construir”, escreveu na sua conta oficial na rede social X.

António Guterres optou por realizar encontros separados de ambos os lados da linha de cessar-fogo estabelecida em 1974.

Na manhã de hoje reuniu-se com o Presidente da República de Chipre, Nikos Christodoulides, na parte greco-cipriota, seguindo depois para a parte norte da ilha, onde se encontrou com o presidente da autoproclamada República Turca do Norte de Chipre (RTNC, reconhecida apenas pela Turquia), Tufan Erhurman, eleito em outubro.

Segundo fontes das Nações Unidas, Guterres deverá reunir-se depois com representantes da sociedade civil e de associações, antes de receber os dois dirigentes para um jantar conjunto, que antecede uma reunião trilateral prevista para quarta-feira.

O objetivo é avaliar, após os encontros com cada um dos líderes, se existe um entendimento mínimo que permita uma eventual retoma do diálogo, segundo observadores.

Fontes próximas do Governo da parte norte de Chipre afirmaram estar “prudentemente otimistas” quanto a essa possibilidade.

A ilha mediterrânica de Chipre está dividida desde 1974, quando a Turquia ocupou o terço norte da ilha em resposta a um golpe de Estado levado a cabo por cipriotas gregos, apoiados por Atenas, que pretendiam a união de Chipre com a Grécia.

Durante a campanha eleitoral das presidenciais de outubro, Tufan Erhurman defendeu a retoma das negociações com os cipriotas gregos e apoiou a reunificação da ilha.

Décadas de negociações sob a égide das Nações Unidas e o destacamento de uma força internacional da ONU ao longo da zona tampão não produziram resultados.

A última ronda importante de negociações de paz, realizada em Crans-Montana, na Suíça, terminou sem acordo em julho de 2017.

Ainda assim, os dois líderes cipriotas reuniram-se em dezembro e manifestaram o compromisso de relançar o processo de paz na presença da enviada de António Guterres, María Ángela Holguín, que se reuniu na segunda-feira com cada um dos dirigentes.

“A missão do secretário-geral é facilitar e incentivar as populações e os dirigentes a considerarem uma negociação. Espero que possamos registar alguns progressos”, resumiu.

Na segunda-feira, o porta-voz do Governo cipriota, Konstantinos Letymbiotis, classificou a visita como “muito importante”, manifestando a esperança de que “sirva de ponto de partida” para novas negociações.

Na sua perspetiva, o empenho pessoal do secretário-geral, a par da evolução das relações entre a União Europeia (UE) e a Turquia, poderá “criar uma oportunidade para alcançar progressos”.

Contudo, os observadores consideram que pouco será possível sem o apoio de Ancara, devido ao estatuto da Turquia como “potência garante” de Chipre — juntamente com a Grécia e o Reino Unido — desde a independência da ilha, em 1960.

Nos últimos anos, porém, a posição turca endureceu, com o Presidente Recep Tayyip Erdogan a defender de forma firme uma solução de dois Estados, em detrimento dos esforços de reunificação promovidos pelas Nações Unidas com vista à criação de um Estado federal.

 

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