
Lisboa, 18 jul 2026 (Lusa) — O Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, um “laboratório de diversidade” criado nos anos 1960 para evocar a paisagem portuguesa, algo “completamente revolucionário”, foi ao longo dos anos ganhando mais espaço e sendo apropriado pela população.
Inaugurado em 1969, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, projetado pelos arquitetos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles (1922-2020) e António Viana Barreto (1924-2012), “foi completamente revolucionário” naquela época.
“Porque, ao contrário daquilo que toda a gente conhecia em Portugal, não foi construído como um jardim clássico, geométrico, decorativo, mas com uma ideia completamente inovadora, de evocar a paisagem portuguesa, a paisagem mediterrânica, construindo através dos contrastes da luz e da sombra, e procurando recriar os ecossistemas que encontramos naturalmente na paisagem”, recordou a arquiteta paisagista Paula Corte-Real, responsável pelo Jardim Gulbenkian, numa visita da Lusa ao espaço.
Os terrenos na zona das Avenidas Novas onde a Fundação Calouste Gulbenkian, criada faz hoje 70 anos, instalou a sua sede eram um parque, onde até então, e desde 1943, esteve instalada a Feira Popular de Lisboa.
A Fundação estudou outras possibilidades na cidade, mas a escolha recaiu sobre o antigo Parque de Santa Gertrudes, devido à grande dimensão do terreno.
Embora grande parte do jardim esteja sobre zonas construídas, “foram criadas as condições mecânicas e biológicas para que se desenvolvessem naturalmente vários ecossistemas distintos – aquáticos, de rochas, de zonas secas”.
Nas zonas mais baixas do Jardim, junto à água, foram colocados freixos, salgueiros, juncos, íris, “séries de vegetação características das linhas de água”.
Já nas zonas mais secas, a azinheira é “a árvore rainha”, mas há também sobreiros e muitos carvalhos: alvarinho, roble, negral.
Apesar de a larga maioria da vegetação ter sido ali colocada, os animais que habitam o Jardim, nomeadamente mais de 40 espécies de aves, sendo o pato-real a mais popular, “foram chegando à medida que os ecossistemas iam evoluindo e oferecendo condições tanto de alimento como de habitat”.
“Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, os animais não foram cá colocados pela Fundação e são animais que, de um modo geral, tanto estão aqui como vão para outras zonas da cidade”, contou Paula Corte-Real.
Os patos-reais, por exemplo, que originalmente são uma espécie migratória, são vistos frequentemente noutras zonas da cidade, como o Jardim Zoológico, o Parque Eduardo VII e Monsanto, mas é na Gulbenkian que passam mais tempo e onde nidificam.
Na primavera e no início do verão, é habitual ver-se ninhadas de patos bebé a passearem pelo jardim, “algo que encanta toda a gente”.
Embora os patos se mantenham na zona de Lisboa, há aves que anualmente chegam e partem para outras paragens.
“Algumas vêm passar o inverno, outras vivem cá o ano todo. Algumas estão cá só no fim de setembro e início de outubro, quando vêm em migrações. Vêm da Ásia, param aqui, depois seguem para África”, partilhou a responsável, lembrando que no outono é habitual realizar-se uma oficina de anilhagem, uma técnica que permite estudar aspetos da biologia, da ecologia, do comportamento e dos movimentos das aves selvagens.
Como qualquer outro ecossistema, “é um equilíbrio delicado”, havendo, por exemplo. animais que chegam ao Jardim e ali permanecem durante algum tempo, acabando depois por desaparecer. Paula Corte-Real contou que tal aconteceu com os pintassilgos que faziam ninhos nas floreiras do edifício sede, mas acabaram por ser expulsos pelos gaios.
Quase 70 anos depois de ter sido criado, “o jardim continua a ser um laboratório de biodiversidade na cidade de Lisboa, e assiste-se a esse aumento progressivo da diversidade, não só de animais, mas também de plantas”.
Num livro da Fundação Calouste Gulbenkian estão identificadas mais de 270 espécies de plantas, e, dentro de cada, táxons diferentes.
Mas segundo Paula Corte-Real, há no Jardim plantas que não constam da publicação, “que são espontâneas, vão surgindo e vão sendo incorporadas no elenco vegetal do jardim”, visto que os jardineiros, durante a manutenção, “têm o cuidado para não retirar tudo aquilo que não foi plantado”.
As plantas vão sendo mantidas, até porque “são muito importantes também para a biodiversidade”, visto haver “espécies, por exemplo, de borboletas, cujas lagartas só se alimentam de uma ou duas espécies de plantas, algo que acontece com muitos insetos”.
Recentemente, a Gulbenkian fez, com o Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, associação sem fins lucrativos dedicada à investigação, divulgação e preservação dos habitats naturais das borboletas e outros insetos, um levantamento dos insetos, muitos dos quais polinizadores, que habitam o Jardim.
“Mas isso é um mundo. Durante o ano em que vieram aqui fazer o levantamento dos insetos, conseguiram descobrir espécies de que ainda só tinham pouquíssimos registos em Portugal”, contou a responsável.
Paula Corte-Real lembra que, por o Jardim da Gulbenkian ser um espaço com “muitos ambientes familiares a todos”, visto evocar a paisagem portuguesa, “com zonas mais recolhidas e mais privadas, e outras zonas mais abertas de encontro”, as pessoas procuram-no muito “para passear, para estudar, para se encontrarem com amigos ou namorados, ou para participar em eventos culturais”, como se comprova facilmente num passeio pelo jardim.
Paula Corte-Real acredita mesmo que “quase todos os lisboetas têm memórias ligadas ao Jardim da Fundação Gulbenkian”.
Entre esses, há vários que o visitam repetidamente e “não entram nos edifícios da Fundação”, algo que a Gulbenkian tenta contrariar. “Há sempre muita oferta cultural – exposições, concertos, conversas, conferências -, muitos destes eventos abertos ao público. E quase utilizamos o jardim também para convidar as pessoas para virem conhecer o resto da atividade da Fundação”, disse.
Paula Corte-Real recorda que, além de ter sido criado com a ideia de evocar a paisagem portuguesa, desde o início “ficou claro que se pretendia que o Jardim fosse um espaço aberto a toda a gente, onde as pessoas pudessem usufruir da cultura, da natureza e do bem-estar”.
Por ano, passam po ali cerca de um milhão de pessoas, sendo os meses de verão e os fins de semana as alturas mais concorridas.
As pessoas que vivem, trabalham ou estudam nas imediações, por exemplo, “utilizam muito o jardim, e utilizam-no no seu quotidiano o mais possível”.
“Os vizinhos fazem questão de, nos seus percursos para o trabalho, atravessá-lo diariamente, porque é um momento de pausa. E utilizam-no quase como um jardim da sua casa, vão buscar as crianças à escola e estão aqui um bocado antes de ir para casa”, contou.
Há dois anos, com a extensão do Jardim para Sul, foi criada uma nova entrada, na Rua Marquês da Fronteira, a juntar às da Avenida de Berna, da Rua Marquês Sá da Bandeira, da Rua Nicolau Bettencourt e da Avenida António Augusto de Aguiar.
Ainda sem pensar em possíveis alterações na dimensão do espaço, o jardim foi construído para, “à imagem da paisagem portuguesa, não ser uma coisa estática”.
Ali consegue “ler-se a passagem das estações, ver árvores e plantas a morrer e outras a nascer, algumas semeadas por aves ou pelo vento”.
Em alturas em que o jardim entrou em processos de degradação, “os arquitetos paisagistas Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles foram sendo chamados e executaram ações de regeneração”.
Em 2000, foi pedido a Gonçalo Ribeiro Telles, na altura com quase 80 anos, que criasse novas zonas de estadia e novos caminhos acessíveis, visto que quase todos os do projeto original têm pequenos degraus.
O resultado foi uma zona de orla, do lado da Av. António Augusto de Aguiar, com espelhos de água que refletem as copas das árvores. “É também uma atitude poética em que ele nos chama a atenção para aquilo que está em cima e que nós temos tendência para não ver”, disse Paula Corte-Real.
Na década de 1980, quando foi construído o Centro de Arte Moderna (CAM), entrou na história do Jardim o arquiteto paisagista Edgar Fontes, responsável por enquadrar o novo edifício no jardim.
Já mais recentemente, quando a fundação comprou os terrenos a sul do CAM, foi criado um novo jardim, cujo projeto é da responsabilidade do arquiteto paisagista libanês Vladimir Djurovic, “muito inspirado nas ambiências do jardim original”.
“Trabalhou-se com o mesmo tipo de vegetação, com os mesmos conceitos de trabalhar a luz e sombra, a construção de ambiências, de recantos mais fechados e de espaços mais abertos, tendo sido preservada toda a vegetação existente, e foram plantadas só espécies autóctones da região de Lisboa”, contou Paula Corte-Real.
O Jardim da Gulbenkian tem uma programação e um serviço educativo próprios, com atividades para todos os níveis de ensino, incluindo universidades sénior.
Ao longo do ano, com maior incidência na primavera e no outono, são programadas visitas guiadas, oficinas de fotografia, de desenho, de construção com matérias vegetais. Em 2025, realizaram-se cerca de 450 atividades.
Na programação é trabalhado “tudo aquilo que este jardim tem a oportunidade de contar: podemos aprender imensa coisa, não só o funcionamento dos ecossistemas, as regras da vida natural, processos, fenómenos químicos, biodiversidade…”.
E isso é tanto, num jardim que é privado, mas aberto a todos.
JRS // MAG
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