Brasil eleva previsão da inflação para 5,1% em 2026 devido ao clima e à guerra

Brasília, 15 jul 2026 (Lusa) — O Governo brasileiro elevou hoje de 4,5% para 5,1% a previsão para a inflação brasileira em 2026, citando pressões dos preços dos alimentos, efeitos do conflito no Médio Oriente sobre o petróleo e o risco de um El Niño mais intenso.

Segundo o “Boletim MacroFiscal da Secretaria de Política Económica” do Ministério da Fazenda (Finanças), os choques recentes de petróleo e de outras matérias-primas continuam a pressionar os preços ao consumidor brasileiro.

No documento, o ministério refere que a inflação dos alimentos permaneceu como o principal fator de pressão, impulsionada pela alta de produtos in natura, leite, arroz e feijão.

A equipa económica também aponta para a persistência da inflação nos serviços e nos bens industriais, apesar da expetativa de desaceleração gradual ao longo do segundo semestre deste ano.

Um eventual agravamento do fenómeno climático El Niño, segundo o Ministério da Fazenda, poderá pressionar os preços dos alimentos ainda neste ano e representar um risco adicional para a safra de 2027.

Em conferência de imprensa, a Secretária de Política Económica, Débora Freire, explicou que “o principal risco é o hidrológico”, que pode gerar encarecimento da energia elétrica no país.

Freire disse que, até ao momento, o Ministério da Fazenda não tem discutido a mitigação dos efeitos do El Niño no país.

Segundo o boletim, os efeitos da guerra no Médio Oriente continuam a influenciar as projeções de inflação, mesmo após um recuo temporário dos preços internacionais do petróleo durante o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irão.

O documento ressalva, porém, que a interrupção da trégua, após a data de corte das projeções, voltou a elevar os riscos para os preços da energia.

“Contudo ainda é cedo para afirmar que os preços tenham se estabilizado: o cessar-fogo permanece frágil, e sua interrupção, posterior à data de corte deste boletim, constitui risco altista não incorporado às projeções”, informou o Ministério da Fazenda.

A equipa económica considera que o choque petrolífero já produziu efeitos indiretos sobre a inflação brasileira, especialmente nos preços dos serviços e dos bens industriais, através do aumento dos custos de produção e transporte.

Como fatores de contenção da inflação, o boletim cita a manutenção da taxa básica de juros em nível restritivo, a desaceleração da atividade económica e medidas para limitar o repasse do aumento dos combustíveis aos consumidores

No boletim estima-se que o impacto macroeconómico do aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deverá ser reduzido.

A equipa económica acrescenta que as medidas tarifárias anunciadas por Washington em junho de 2026, ainda pendentes de aprovação, preveem exceções para diversos produtos, o que deverá manter limitado o impacto agregado sobre a economia brasileira.

No documento são citadas as medidas adotadas pelo Governo brasileiro desde o ano passado para ampliar crédito, liquidez e diversificação de mercados para os setores mais expostos.

O mercado norte-americano, segundo o boletim, respondeu por cerca de 11% das exportações brasileiras em 2025, equivalentes a menos de 2% do PIB antes do choque tarifário.

A avaliação da equipa económica é que o redirecionamento de parte das vendas para outros destinos compensou uma parcela significativa das perdas.

Em relação ao PIB, a equipa económica manteve a projeção de crescimento de 2,3% para a economia brasileira em 2026, mas prevê uma desaceleração da atividade no segundo trimestre após o forte desempenho registado no início do ano.

A desaceleração é atribuída sobretudo ao fim do impulso proporcionado pela colheita recorde de soja, que elevou o desempenho da agropecuária no início do ano.

Também a indústria deverá perder ritmo, passando de uma expansão de 1,2% para 0,8%, refletindo menor dinamismo da indústria extrativa e da construção, avalia a equipa económica do Ministério da Fazenda.

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