
Beira, Moçambique, 12 jul 2026 (Lusa) — Cada vez mais mulheres trabalham no transporte com motorizadas na cidade da Beira, centro de Moçambique, procurando alternativas ao desemprego e ao elevado custo de vida, num setor tradicionalmente dominado por homens ainda marcado por preconceitos de género.
Pelas 05:00, quando as primeiras motorizadas começam a circular pelas principais avenidas da Beira, mulheres ocupam já paragens em bairros como Matacuane, Macurungo e Nhangau, conciliando o transporte de passageiros e mercadorias com a responsabilidade de sustentar as suas famÃlias.
É o caso de Augusta Munguela, 48 anos, que se tornou uma das referências femininas no corredor de Matacuane. Viúva e mãe de cinco filhos, conduz uma moto-táxi há sete anos, atividade que abraçou após perder o negócio que mantinha no mercado do Goto.
O ponto de viragem aconteceu após a passagem do ciclone Idai, em 2019, que destruiu as 12 bancas que possuÃa. Anos antes, em 2008, perdeu o marido.
“Tudo ficou associado para mim. Perdi o marido, depois perdi o negócio. Fiquei sem chão”, recorda à Lusa.
Sem alternativas de rendimento, decidiu apostar na motorizada. Numa primeira fase, aceitava apenas transportar mulheres.
“Pensava que assim estaria mais segura, que ia evitar confusão. Mas comecei a ver que estava a perder dinheiro. Às vezes apareciam dois homens precisando de boleia e eu recusava. Acabei percebendo que tinha de quebrar esse preconceito eu mesma”, explica.
Segundo Augusta, a pandemia da covid-19 acabou por consolidar essa decisão, numa altura em que os rendimentos do pequeno comércio diminuÃram e os filhos ingressaram no ensino superior.
“Não tinha onde arranjar dinheiro para as propinas. Levei a sério o táxi-mota porque era preciso. Apreciei a atividade num momento em que estava mesmo a precisar de valores”, conta.
Atualmente, diz financiar com a motorizada os estudos dos filhos na Universidade Licungo e na Universidade Zambeze, incluindo uma filha que frequenta o curso de Medicina.
“O que parecia impossÃvel para uma mãe sem estudo, a mota deu-me”, afirma.
Augusta reconhece, contudo, que a atividade continua associada a dificuldades e riscos.
“Primeiro é determinação e esforço. Aliás, fé acima de tudo. Quando saio de casa ninguém sabe o que vai acontecer”, desabafa.
Além dos desafios diários da condução, admite enfrentar atitudes discriminatórias.
“Já ouvi: ‘Mulher não sabe guiar’. Mas quando chego primeiro, ninguém fala nada”, diz.
Para outras mulheres interessadas em ingressar na atividade, deixa uma mensagem de encorajamento.
“Que elas tenham muita força e se espelhem em mim. Hoje sinto-me uma mulher poderosa. Nós não somos mulheres fracas. CaÃmos, mas levantamo-nos sem precisar lamentar ou andar de porta em porta. Tenham moral, coragem e não tenham vergonha, porque a vergonha não nos leva a lugar nenhum. Façam o vosso trabalho”, apela.
Também na Beira, Balbina SÃlvio, 47 anos, divide há mais de uma década a atividade de professora com pequenos negócios apoiados pela utilização da motorizada.
“Não é só com o salário que se vive. O custo de vida está alto e eu tenho cinco filhos para criar, além de outros membros da famÃlia. Acabei pensando em fazer outras coisas para conseguir ajudar em casa”, explica.
A motorizada adquirida pela famÃlia tornou-se uma ferramenta de trabalho para transporte de mercadorias e abastecimento do seu próprio negócio.
“A vida está cara. Nós não tÃnhamos transporte em casa, o único que tÃnhamos era a mota. Acabei fazendo esse trabalho e faço com gosto até hoje”, afirma Balbina.
A atividade – e a pequena motorizada que usa – permitiu-lhe expandir gradualmente os negócios, passando da venda de bebidas a outras iniciativas comerciais.
“Estou prosperando aos poucos. Acredito que não comecei assim, mas já estou chegando num patamar elevado”, relata.
A professora defende igualmente a autonomia económica das mulheres.
“Gostaria que todas as mulheres pensassem assim. Em vez de estarmos atrás de prejuÃzos ou procurar outros homens, vale a pena adotarmos o negócio para conseguirmos sobreviver”, afirma.
Apesar dos progressos alcançados, ainda espera expandir o negócio.
“Quem puder ajudar no meu negócio, de boa-fé, para eu progredir mais, ter mais mercadoria, tudo é possÃvel”, diz.
Para Jacinta dos Remédios, presidente da Assembleia Municipal da Beira, o aumento do número de mulheres na atividade de transporte por motorizada reflete uma procura crescente por oportunidades económicas.
“É uma honra ver as mulheres a lutarem para superar os desafios socioeconómicos do paÃs. A ocupação deste espaço é um passo concreto na concretização da paridade”, afirma.
A autarca considera que a atividade é simultaneamente uma forma de empreendedorismo e uma resposta à escassez de emprego.
“As mulheres fazem isso pelo facto de não haver empregos em Moçambique. Há mulheres com grau académico aceitável, mas porque não há emprego, então esta atividade funciona como empreendedorismo”, sustenta.
Jacinta dos Remédios alertou, no entanto, para a necessidade de reforçar a formação e a segurança rodoviária dos profissionais do setor.
“É importante que essas mulheres estejam capacitadas, licenciadas. Devem conhecer o código de estrada, porque sem isso é um risco”, defende.
A responsável apela igualmente a mais ações de capacitação.
“É necessário que o Conselho Municipal ou instituições de direito formem as mulheres, assim como os homens, para evitar muitos acidentes e danos que possam acontecer”, acrescenta.
O presidente da Associação dos Moto-taxistas da Beira, Jacob Pereira, vê a entrada de mais mulheres na atividade como um sinal positivo para o setor.
“É um sinal de crescimento. É encorajar outras meninas, outras donas, para poderem fazer a mesma atividade e conseguir o seu sustento de conta própria. Isso ajuda a alavancar a atividade económica”, afirma.
Segundo o responsável, a associação trabalha com o Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) e com uma escola de condução para promover ações de formação e reciclagem.
“O objetivo é garantir que todos dominem as regras de trânsito e técnicas de condução defensiva. O acidente não tem nada a ver com cargos. Nem eu, por ser presidente, deixei de ir à capacitação. Aprendi coisas que não tinha em mente”, explica.
Jacob Pereira acrescenta que apenas os profissionais que concluÃrem a formação receberão certificado de aptidão.
“Quem não tiver o certificado vai ser penalizado, porque está a fazer esta atividade sem estar habilitado”, alerta.
As moto-taxistas ouvidas pela Lusa, algumas ainda receosas de dar a cara, relatam jornadas de trabalho que podem ultrapassar 12 horas diárias, exposição a acidentes de viação, assaltos e situações de assédio por parte de alguns passageiros, principalmente durante a noite.
Num setor durante décadas associado aos homens, a presença crescente de mulheres nas paragens de moto-táxi da Beira revela uma mudança gradual num mercado de trabalho marcado pela informalidade, onde muitas encontram uma fonte de rendimento para sustentar as famÃlias e assegurar a continuidade dos estudos dos filhos.
*** José Jeco, da agência Lusa ***
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