Amargo regresso à normalidade na Caparica com a água ainda incerta

Lisboa, 11 jul 2026 (Lusa) — Na Costa da Caparica, fazem-se hoje limpezas e contas aos prejuízos, após as sucessivas falhas de água que deixaram um impacto ainda por quantificar no comércio local e que levaram muitos turistas a abandonar a cidade.

Rosália Medeiros, proprietária de uma mercearia, lida com episódios de falta de água desde o início do ano. “Estamos a pagar por uma coisa que não estamos a utilizar”, lamentou, em declarações à agência Lusa, no local.

“Os turistas vão embora, o dinheiro vai embora e quem fica aqui a chupar o dedo são os comerciantes e a população, em geral, que tem crianças e idosos, e toda a gente está a sofrer muito com isso”, garantiu.

“Não acho justo pagar a água, os impostos e tudo isso e ter falta de água, que é um bem essencial […] sem água o ser humano não sobrevive”, prosseguiu.

Segundo a comerciante, gerir um negócio nestas condições não é fácil: “Precisamos de água para tudo, para a casa de banho, para limpar o chão, para lavar os utensílios da loja e não temos. Hoje temos, ontem [sexta-feira] e anteontem também, mas não acho justo”.

Rosália, que está na cidade há 20 anos e garante que antes não era assim, diz ter vendido toda a água que tinha e só não vendeu mais porque o turismo “foi embora”. A água que esgotou nos supermercados, acumula-se hoje em paletes.

“As pessoas estão cansadas de chegar à Costa, uma cidade turística, e não ter água. As pessoas saem a falar horrores da Costa da Caparica, os meus clientes que são turistas saíram a falar horrores; que não vêm mais”, sublinhou.

“Passamos o ano todo à espera do verão para ganhar dinheiro, quando chega a época de ganhar dinheiro, a cidade não tem água, as pessoas vão embora, perdemos o dinheiro”, reiterou.

Na farmácia situada no centro da Caparica, atendem-se situações provocadas pelo calor e pela falta de água para a higiene pessoal.

“A nível de desidratação não temos tido muitas queixas, porque felizmente as pessoas vão conseguindo comprar água, agora a nível de problemas de não conseguirem fazer a higiene mais corretamente, sim”, disse à Lusa o farmacêutico João Rodrigues.

Os problemas mais comuns verificam-se em pessoas com mais idade, que se apresentam “com a pele macerada” e “com assaduras”.

“Especialmente os velhotes, por não terem água corrente para conseguirem fazer a higiene. Isso foi o que se verificou nos últimos dias”, contou.

De acordo com João Rodrigues, os problemas de falta de água começaram em maio, mês a partir do qual diminuiu o fluxo nas torneiras e aumentaram os cortes no fornecimento.

“Agora exacerbou-se no final de junho, começou a haver muito mais dificuldade”, acrescentou.

No mercado da Costa há quem diga que não voltou a faltar a água desde a manifestação de quarta-feira, que reuniu 1.500 pessoas, cansadas de sucessivas interrupções no abastecimento, sem aviso prévio ou qualquer previsão de regresso à normalidade.

Os serviços da autarquia decidiram, entretanto, adotar “cortes solidários” em zonas onde não havia falta de água, para compensar os défices noutros locais.

Neste momento, a situação está mais estável, com cortes por localidades durante a noite, alternadamente, mas há áreas, como o Monte da Caparica, onde moradores continuam a reportar que na sexta-feira não havia água.

Na estalagem Colibri, o funcionamento da unidade foi assegurado através de um reservatório instalado de raiz no edifício, construído nos anos 50, como prevenção, disse à Lusa a rececionista, Silvia Vieira.

Nos dias em que faltou a água, o reservatório enchia durante a noite para assegurar as necessidades básicas de funcionamento durante o dia, contou, relembrando os problemas crónicos com a água na Costa, face ao aumento e população no verão.

Ainda assim, perderam-se clientes. “As pessoas perguntam, então e os restaurantes, casas de banho de praia? Claro que isso está tudo fechado e muitos clientes, cancelaram”, admitiu, concordando que férias “não é só hotel”.

“Estou a lembrar-me do fim de semana passado, as filas a saírem da Costa, ao contrário do que é normal, 11:30-12:00, as pessoas chegaram, viram que não havia água em lado nenhum, nem um cafezinho, não havia nada”, recordou, ao fazer o retrato do que foram as últimas semanas na Costa da Caparica.

*** Ana Mendes Henriques (texto), Rui Pereira (vídeo) e Rui Minderico (fotos), da agência Lusa ***

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