Treinador português leva Moçambique ao primeiro mundial de futebol e promete jogar “olhos nos olhos”

Maputo, 11 jul 2026 (Lusa) — O treinador português Luís Guerreiro, que conduziu Moçambique ao primeiro Campeonato do Mundo de futebol, garante que os “Mambinhas” vão disputar a competição de sub-17 “olhos nos olhos”, vendo esta geração capaz de afirmar o país.

“É histórico. É a primeira seleção moçambicana a ir a um Campeonato do Mundo. Realmente estes rapazes, esta geração merece. É uma geração muito boa, com muita qualidade”, afirmou à Lusa o treinador português, de 75 anos, licenciado em Educação Física e detentor da licença UEFA Pro, que soma várias décadas de carreira como jogador e treinador em Portugal, Angola, Uganda e Moçambique.

Em conversa com a Lusa no Campo da Académica da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde orientou mais uma sessão de treino da seleção nacional, Luís Guerreiro mostra-se confiante no grupo que assegurou o inédito apuramento para o Mundial do Qatar, marcado para 19 de novembro a 13 de dezembro próximo, edição que reunirá, pela primeira vez, 48 seleções, incluindo Moçambique.

Em Portugal conquistou 11 títulos e orientou clubes como Olivais e Moscavide, Mirandela, Fanhões, Marítimo Graciosa e Guadalupe, entre outros. Depois de experiências em Angola e Uganda, regressou a Moçambique, onde passou pela Academia da Namaacha e pelo Desportivo de Chibuto antes de assumir o projeto das seleções jovens da Federação Moçambicana de Futebol (FMF).

O técnico explicou que a construção da atual geração dos “Mambinhas” começou em 2023, através da observação de jovens provenientes dos campeonatos escolares e dos clubes nacionais, num trabalho desenvolvido em conjunto com a equipa técnica da FMF. O objetivo passava por identificar jogadores com potencial e criar uma base competitiva para as seleções nacionais de formação.

O processo culminou com o apuramento histórico para o Campeonato do Mundo, alcançado em junho no Campeonato Africano das Nações (CAN) de sub-17, disputado em Marrocos. Moçambique garantiu a presença na prova mundial após vencer a Etiópia por 5-4 no desempate por grandes penalidades.

Até agora, nunca uma seleção em Moçambique tinha conquistado a presença numa fase final de uma competição mundial de futebol de 11.

Segundo Luís Guerreiro, a base desta seleção deverá manter-se praticamente intacta até ao Mundial, estando previstas apenas alterações “pontuais”.

Antes da competição mundial, os “Mambinhas” vão disputar, em Portugal, entre 14 e 22 de julho, a Cascais Luso Cup, torneio que venceram de forma invicta em 2025. A prova servirá como mais uma etapa de preparação para uma competição em que Moçambique terá pela frente algumas das principais escolas do futebol internacional.

Inserida no Grupo C do Mundial, a seleção moçambicana vai defrontar Dinamarca, Argentina e Austrália, mas Luís Guerreiro rejeita que a equipa parta em posição de inferioridade perante adversários com maior tradição no futebol de formação.

E acredita que a experiência de outras seleções africanas demonstra que é possível competir ao mais alto nível: “A mesma leitura que eu faço sobre esse grupo é a mesma que eu fiz agora com a seleção de Cabo Verde. Era uma seleção desconhecida [Mundial sénior], e nós também vamos ser uma seleção desconhecida. Portanto, é a primeira vez que Moçambique vai ao Campeonato do Mundo, é a primeira vez que Cabo Verde também foi ao Campeonato do Mundo (…), espero também realmente que tenham respeito por Moçambique”, afirmou.

O técnico considera que a presença neste Mundial representa também uma oportunidade para os jovens jogadores moçambicanos mostrarem qualidade perante clubes europeus, numa competição acompanhada por observadores e agentes internacionais. Luís Guerreiro admite que alguns atletas já despertam atenção externa, mas garante que o foco permanece na preparação da equipa.

“Não tenho dúvidas nenhumas que há jogadores aqui que têm a qualidade para chegar ao futebol europeu. Assim lhe deem a oportunidade e que eles estejam no lugar certo, porque às vezes podem não estar no lugar certo (…) o Campeonato do Mundo é a montra, e estou convencido de que a maioria dos empresários que vão lá estar vai olhar realmente para esta seleção de Moçambique”, disse.

O capitão Diego Pelembe, de 17 anos, filho do antigo internacional moçambicano Dominguez, considerou o apuramento para o Mundial “uma sensação muito agradável” e garantiu que a equipa pretende chegar “o mais longe possível” na competição, assumindo o desafio com ambição.

Também o extremo Joaquim Mubai, de 16 anos, destacou a confiança do grupo perante adversários de maior nomeada e garantiu que os jogadores não se deixam intimidar pelo peso das camisolas.

“Os nomes falam muito, mas já dentro do campo é outro assunto. Prometemos bons resultados, não importa o nome, o trabalho vê-se dentro do campo”, afirmou.

Durante os treinos, o técnico português tem insistido não apenas nos aspetos técnicos e táticos, mas também na disciplina e no comportamento fora do campo. Aos jogadores, recordou que a importância dos “treinos invisíveis”, relacionados com descanso, alimentação e responsabilidade individual.

Para Luís Guerreiro, os jovens precisam de aprender a viver como profissionais antes mesmo de chegarem ao futebol de alto rendimento, uma exigência que considera decisiva para aproveitarem oportunidades futuras e manterem uma evolução constante.

Destaca ainda o papel dos clubes moçambicanos e dos técnicos que acompanham diariamente estes jogadores, considerando que o apuramento para o Mundial resulta também do trabalho desenvolvido na formação nacional.

Luís Guerreiro salientou a aposta da FMF na capacitação dos treinadores, defendendo que a melhoria da formação técnica contribui diretamente para o crescimento dos jovens atletas.

O selecionador entende que o futebol africano deixou de ser visto como uma realidade secundária e acredita que Moçambique pode aproveitar a presença no Mundial para reforçar essa mudança de perceção internacional.

“A bola em África já não é quadrada, a bola é redonda e temos muita qualidade relativamente aos jogadores”, afirmou, acrescentando que “o objetivo é competir e tentar ganhar os jogos, olhos nos olhos, seja com a Dinamarca, seja com quem for” e não ser uns “coitadinhos”.

*** Egídio Mazuze (texto), Fernando Cumaio (vídeo), Lina Cebola e Luísa Nhantumbo (foto), da agência Lusa ***

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