Moçambique/Ataques: Ruanda continua em Cabo Delgado com críticas à “relutância” da UE

Maputo, 19 mai 2026 (Lusa) – O Ruanda anunciou hoje que vai manter-se em Cabo Delgado, no combate ao terrorismo, criticando que dois pedidos à União Europeia para apoio financeiro foram recebidos com “relutância”, o qual será agora assumido por Moçambique.

“A colaboração entre os dois governos tem sido bem-sucedida e continuará nessa mesma linha, visto que o trabalho das forças de segurança ruandesas em Cabo Delgado é reconhecido pelo país irmão, Moçambique”, afirmou, numa mensagem hoje na rede social X, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe.

Em causa está o fim, já previsto anteriormente para maio, do apoio financeiro, após 40 milhões de euros desembolsados – em dois momentos, o primeiro apoio e a renovação -, da União Europeia (UE) à operação que o Ruanda assume há cinco anos em Cabo Delgado, apoiando as Forças Armadas moçambicanas no combate aos grupos terroristas que operam na região, que concentra das maiores reservas de Gás Natural Liquefeito (GNL) em África, palco de insurgência desde 2017.

“Durante o mesmo período, as forças de segurança ruandesas beneficiaram da assistência do Mecanismo Europeu para a Paz (MEP), com um montante que representa uma pequena fração das despesas reais do Ruanda em Moçambique e dos investimentos da UE em Cabo Delgado”, aponta o chefe da diplomacia ruandesa.

“Lamentavelmente, notámos que os dois pedidos do Governo do Ruanda a Bruxelas foram recebidos com relutância e politizados por alguns Estados-Membros da UE (incluindo as nossas duas antigas potências coloniais [referência a Portugal e Bélgica]), transformando um apoio crucial a um povo moçambicano numa crítica irracional ao Ruanda, lançada aos leões pelos próprios países que beneficiam economicamente da nossa intervenção em Cabo Delgado”, descreve ainda.

Acrescenta que, “este ano, o Ruanda voltou ao básico e decidiu tratar exclusivamente com o Governo de Moçambique, que, por sua vez, garantiu e continuará a garantir o financiamento necessário para as forças de segurança ruandesas em Cabo Delgado”.

Olivier Nduhungirehe recordou que em 2021 as forças de segurança ruandesas intervieram em Cabo Delgado a convite do Governo de Moçambique e que “a missão foi bastante bem-sucedida”.

“A paz e a estabilidade foram restauradas, as famílias regressaram a casa, as crianças voltaram à escola, as empresas reabriram, as forças moçambicanas foram (e continuam a ser) treinadas e as empresas europeias/americanas puderam retomar em segurança os seus investimentos de 50 mil milhões de dólares [43,1 mil milhões de euros] em GNL”, apontou ainda.

O Governo ruandês confirmou em abril que tem mais de 6.300 militares a combater o terrorismo no norte de Moçambique, três vezes mais face ao destacamento de 2021, reafirmando precisar de um “quadro de financiamento sustentável” para continuar.

“O Ruanda tem reiteradamente defendido que o destacamento a longo prazo das nossas forças de segurança em operações conjuntas de combate ao terrorismo em Moçambique exige um quadro de financiamento sustentável. Tendo até agora suportado a maior parte do encargo financeiro destas operações, uma transição para um financiamento mais equitativo é uma necessidade estratégica”, afirmou então a porta-voz do Governo ruandês, Yolande Makolo.

Ao reagir, através da sua conta oficial na rede social X, a notícias em órgãos internacionais sobre as negociações entre o Ruanda e os Estados Unidos da América (EUA) e a UE, Makolo afirmou que cabe ao Governo moçambicano tratar desse financiamento.

“O Ruanda não solicitou e não solicitará fundos adicionais do Mecanismo Europeu para a Paz, isso é uma questão para Moçambique. O destacamento do Ruanda exige financiamento sustentável e cabe ao Governo anfitrião e aos seus parceiros com grandes investimentos em Cabo Delgado providenciá-lo, como sempre foi”, disse.

A posição surge quando se aproximava o fim do apoio financeiro da UE à operação, em maio, ao fim dos 36 meses previstos e de desembolsos de 40 milhões de euros, e numa altura em que os EUA — que financiam o megaprojeto de GNL liderado pela francesa TotalEnergies em Cabo Delgado — aplicaram sanções às Forças de Defesa do Ruanda (RDF), devido ao conflito na República Democrática do Congo.

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