Leonor Teles ficcionou a infanticida Luiza de Jesus num futuro distópico para série televisiva

Lisboa, 09 mai 2026 (Lusa) — A realizadora Leonor Teles estreia-se como realizadora de ficção e para televisão, na adaptação da história da portuguesa Luiza de Jesus, que matou mais de 30 bebés no século XVIII, projetando-a para um futuro distópico.

Leonor Teles terminou esta semana a rodagem de um dos quatro episódios da série de ficção “Psicopatas Portugueses”, produzida pela Promenade Films a partir das histórias de vários criminosos portugueses e que deverá ter estreia na RTP em 2027.

O episódio centra-se em Luiza de Jesus (1748-1772), a última mulher a ser executada em Portugal, por ter assassinado, de forma macabra e cruel, 33 bebés abandonados na roda dos expostos, da Santa Casa da Misericórdia.

No último dia de filmagens, enquanto a equipa técnica montava o cenário futurista num bar em Odivelas (concelho de Lisboa), Leonor Teles explicou à agência Lusa que o que mais lhe interessou na adaptação da história foi humanizar e perceber quem terá sido esta mulher, ao invés de explorar toda a monstruosidade dos crimes cometidos.

“A ideia é só um bocadinho também pôr-nos todos a pensar sobre o que é que a sociedade implica, ou quais são as consequências da sociedade em que vivemos e como é que as coisas podem escalar drasticamente de um momento para o outro. (…) Acho que foi um bocadinho essa a tentativa, foi mesmo tentar perceber quem é que poderia ser esta Luísa se não fosse no século XVIII”, disse.

Daí que tenha deslocado a história do passado para o futuro. A narrativa forjada por Leonor Teles acontece em 2099 e Luiza de Jesus é uma jovem mulher estafeta, interpretada pela atriz Joana Ribeiro.

“Nós, quando filmamos época, seja para a frente ou para trás, estamos sempre a falar no agora, para refletirmos o agora. (…) As pessoas estão cada vez mais isoladas, vivem menos em sentido de comunidade e acho que às vezes é engraçado nós também podermos pensar que a culpa não é só exclusivamente individual, é também às vezes um contexto social que leva a um mundo de raiva e violência e psicopatia e loucura”, defendeu.

Leonor Teles, Urso de Ouro em Berlim pela ‘curta’ “Balada de Um Batráquio”, autora das ‘longas’ “Terra Franca” e “Baan” e que dirigiu a fotografia para filmes de realizadores como Pedro Cabeleira e João Canijo, diz estar a navegar em águas novas, no formato televisivo.

“Primeiro, eu nunca trabalhei com atores. Nunca dirigi atores profissionais. Até agora, como realizadora, trabalhei sempre com pessoas que não têm uma formação profissional como atores. (…) E também me pareceu interessante experimentar um formato que não fosse aquilo que eu até agora tinha alguma vez feito. Aqui tem uma logística que tem de ser cumprida e não há margem”, contou.

Este primeiro episódio, que retrata uma Luiza de Jesus de um futuro distópico, também aborda questões de fertilidade, numa sociedade que está dividida entre pessoas com mais acesso a melhores condições de vida e uma população pobre.

“Informei-me muito sobre o que aconteceu em 1772, mas depois também usei isso para este futuro distópico, porque há coisas muito parecidas. Em 1772 as mulheres também tinham um papel mais secundário na sociedade, passavam por muitas dificuldades e Portugal era um país muito pobre, portanto nesse aspeto há uma ligação entre estas duas Luísas”, disse a atriz Joana Ribeiro à Lusa.

Joana Ribeiro sublinhou que “o objetivo principal deste episódio não é falar sobre os crimes que a Luiza de Jesus cometeu, é mesmo uma adaptação e tentar meter essa adaptação num futuro distópico que também serve um bocado como aviso”.

A série, com histórias e casos de justiça narrados nos livros “Psicopatas Portugueses”, de Joana Amaral Dias, será rodada até meados de junho, com diferentes realizadores para cada episódio: Leonor Teles, Justin Amorim, Ana Correia e a dupla Marco Leão & André Santos.

Além de Joana Ribeiro, os protagonistas são Duarte Gomes, Albano Jerónimo e Elmano Sancho, à frente de um elenco que contará com nomes como Sandra Faleiro, São José Correia, André Leitão, João Vicente, Leonor Silveira, João Lagarto, Vítor Silva Costa, Jani Zhao, Ângelo Rodrigues e Tomás Taborda.

Dos restantes episódios, Duarte Gomes será o GNR Saraiva Antunes, de um caso de homicídio e suicídio ocorrido em 1988, Albano Jerónimo protagoniza José Borrego, que matou e esquartejou várias pessoas entre 1969 e 1970, e Elmano Sancho será Francisco Leitão, conhecido como “Rei Ghob”, condenado em 2012 por homicídios e crimes sexuais.

“As pessoas têm um fascínio com psicopatas, no geral, e eu também adoro ver as séries de ‘true crime’. Quando encontrei o livro [de Joana Amaral Dias] achei que era um bom resumo e uma boa coleção das histórias. (…) Portanto, percebemos que desde sempre na história de Portugal temos psicopatas”, disse o produtor e realizador Justin Amorim à agência Lusa.

“Psicopatas Portugueses” é uma coprodução entre Portugal e o Luxemburgo — cada episódio teve um orçamento de cerca de 300 mil euros — e envolve um elenco de 50 atores e uma equipa alargada de argumentistas.

“Nós quisemos fazer uma coisa com qualidade de cinema, mas para a televisão”, disse Justin Amorim.

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