
Londres, 04 mai 2026 (Lusa) – O etanol de milho do Brasil ultrapassou uma importante etapa regulamentar na Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), dando ao país vantagem sobre os EUA e outros concorrentes na corrida para abastecer navios, segundo fonte oficial.
O chamado etanol de milho da safrinha (termo popular no Brasil para designar milho de segunda colheita) é o primeiro biocombustível compatível com transporte marítimo a ter sua pegada de carbono definida e aprovada pela IMO, disse o capitão de mar e guerra Flávio Mathuiy, que representa o Brasil no órgão regulador global do setor, citado pela agência de informação financeira Bloomberg.
A decisão remove um obstáculo importante para o biocombustível brasileiro antes da entrada em vigor de um marco global da IMO para reduzir emissões de gases com efeito de estufa no transporte marítimo, o que pode impulsionar a atividade dos produtores de milho e comerciantes de etanol neste país lusófono.
O marco de emissões zero da IMO foi aprovado em abril de 2025, mas a sua adoção formal foi adiada para dezembro de 2026 após pressão dos EUA, escreve a Bloomberg, acrescentando que as regras devem abrir caminho para o fim do petróleo como principal combustível do transporte marítimo e viabilizar alternativas mais limpas.
O setor de transporte marítimo responde por 2% a 3% das emissões globais de gases de efeito de estufa, segundo um estudo da IMO de 2020, e, de acordo com o Banco Mundial, se este setor fosse um país, seria o sexto maior emissor do mundo, entre o Japão e Alemanha.
O Comité de Proteção do Meio Marítimo da IMO, que se reuniu na semana passada em Londres, aprovou um “valor padrão” de 20,8 gramas de CO2 equivalente por megajoule para o etanol brasileiro produzido a partir do milho de segunda colheita, segundo Mathuiy.
O valor de referência, usado para medir eficiência energética e redução de emissões, é de 93,3 gramas de CO2 equivalente para o combustível.
“Trata-se de um avanço emblemático”, disse Mathuiy, acrescentando: “A aprovação do valor padrão sinaliza às empresas de navegação que combustíveis alternativos podem ser escolhidos”.
O etanol de milho da safrinha do Brasil é o primeiro a receber essa classificação, sendo que os outros combustíveis renováveis vão precisar da mesma aprovação da IMO, que procura concluir o enquadramento desta área, estabelecendo sanções e incentivos, num esforço para tentar reduzir emissões.
O milho da safrinha é plantado após a colheita da soja nas mesmas áreas e deve representar quase 80% da produção total deste cereal no atual ano comercial.
O setor afirma que o etanol de milho brasileiro tem, por natureza, menor intensidade de carbono do que o biocombustível dos EUA, devido a fatores como o uso de biomassa na produção e a possibilidade de plantar duas vezes.
Empresas no Brasil começaram a produzir etanol de milho em 2017, lembra a Bloomberg, apontando que embora o etanol ainda seja maioritariamente derivado da cana-de-açúcar, o milho, em menos de uma década, passou a valer quase um quarto da produção.
Mathuiy afirmou que o Brasil também está à procura de aprovação técnica da IMO para o etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel produzido a partir de soja e sebo bovino para uso no transporte marítimo.
MBA // VM
Lusa/Fim
