
Lisboa, 04 mai 2026 (Lusa) — O Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, inaugura quarta-feira a exposição “A Cola não faz a Colagem”, percorrendo mais de sete décadas da obra do artista no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento, segundo a organização.
Com cerca de 50 obras, entre pinturas, desenhos, esculturas e assemblagens, a mostra antológica propõe uma leitura transversal do percurso de Júlio Pomar (1926-2018), destacando a liberdade de experimentação que marcou a sua prática ao longo de diferentes períodos.
A exposição evidencia “o modo como o confronto e a articulação de fragmentos constituíram uma estratégia recorrente no trabalho do artista, permitindo-lhe refletir sobre a História da Arte, a estrutura das imagens e a construção de novos sentidos e narrativas visuais”, descreve a curadoria, a cargo de Sara Antónia Matos, Pedro Faro e Constança Pupo Cardoso, num texto sobre a mostra.
Partindo da ideia de colagem, o projeto alarga este conceito a diferentes metodologias de criação, como cortar, recortar, justapor, montar, sobrepor ou recombinar, práticas que atravessam suportes e técnicas ao longo da obra do artista, segundo o Atelier-Museu inaugurado em 2013.
Este processo é visível desde o período neorrealista, em obras como “Paisagem, Azenhas do Mar” (1952) e “Ribeira Nova” (1957), até à fase final da vida de Pomar, quando a prática se expandiu à incorporação de objetos.
“Pinto, recorto, combino, repinto ou raspo, arranho, limo, aliso; para a seguir talvez nada mais fazer do que re-recortar, re-combinar, re-pintar, outra vez, e tudo desarrumar”, escreveu Júlio Pomar, sintetizando uma abordagem assente na experimentação contínua.
O título da exposição recupera uma citação do artista alemão Max Ernst, apropriada por Pomar num dos seus textos, sublinhando que “não é a cola que faz a colagem”, uma reflexão sobre o gesto criativo e a construção da imagem.
A referência aproxima-se também da abordagem do pintor Henri Matisse (1869-1954) aos “guaches recortados”, valorizando o recorte como gesto fundamental na criação artística, apontam ainda os curadores.
Ponto alto das comemorações do centenário, a exposição inaugura na quarta-feira, às 18:00, no Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, e ficará patente ao público até 06 de setembro.
O programa de comemorações inclui ainda o lançamento de um prémio de pintura, exposições em Portugal e no estrangeiro, a par de lançamentos editoriais sobre a obra do artista, um dos maiores expoentes do neorrealismo português, que viveu até aos 92 anos, com mais de 70 de carreira.
Entre as décadas de 1940 e 1950, o pintor destacou-se como a figura artística e cívica mais influente deste movimento em Portugal, utilizando a sua arte como uma forma de resistência política e social contra o regime do Estado Novo.
Está também prevista uma exposição itinerante internacional intitulada “Centenário de Júlio Pomar”, organizada pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Atelier-Museu, que levará a obra do artista a diversas embaixadas portuguesas e a outros equipamentos culturais em vários contextos internacionais, de acordo com a organização.
O programa integra igualmente a exposição “Pintura – Pintura: Júlio Pomar e Gabriel Abrantes”, agendada para setembro, promovendo um confronto entre duas gerações e linguagens artísticas no campo da pintura.
No plano da reflexão e do debate, decorrerá um ciclo de conversas sobre arquivos, promovido pelo Banco de Arte Contemporânea e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, bem como um ciclo de conversas dedicado à relação entre “Arte e Inteligência Artificial”, com o objetivo de aprofundar questões atuais da criação artística.
Júlio Pomar instalou-se em Paris em 1963 e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966, vivendo e trabalhando entre a cidade francesa e Lisboa até à data da sua morte, em maio de 2018, na capital portuguesa.
Até ao fim da sua longa vida continuou a criar desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas e colagens, com intervenções artísticas em obras públicas em diversas cidades, como é o caso da Estação Alto dos Moinhos do Metropolitano de Lisboa.
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