
Brasília, 26 abr 2026 (Lusa) – Relatórios enviados ao Congresso brasileiro apontam que o tráfico de cocaína é o principal “motor do crime organizado” na Amazónia, sendo as fronteiras do Brasil com Peru e Bolívia as principais portas de entrada de drogas.
Os relatórios da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) e da Polícia Federal (PF) do Brasil descrevem que as duas principais organizações criminosas do Brasil “estão fortemente estabelecidos na Amazónia brasileira”.
Trata-se do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, ambas nascidas na região Sudeste do Brasil.
Segundo a Senappen, estão a explorar “a vasta fronteira e as cadeias de suprimentos da cocaína” na Amazónia.
“Além do tráfico de entorpecentes, esses grupos atuam em crimes transnacionais e ambientais, como garimpo ilegal, lavagem de dinheiro e desmatamento, grilagem de terras públicas”, sublinhou o órgão.
Essas informações foram publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmadas pela Lusa através de documentos enviados pela PF e Senappen ao Congresso Nacional brasileiro.
O parlamento do Brasil instaurou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado em novembro, cujos trabalhos encerraram a 14 deste mês.
À Lusa, o geógrafo e pesquisador Aiala Colares Couto, que estuda o crime organizado na Amazónia, explica que o Brasil é o segundo maior mercado de cocaína no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, sendo a Europa o terceiro.
Para Aiala Colares, que cunhou o termo “Narcoecologia”, a região Amazónica é estratégica para o crime organizado, porque é uma área que integra várias outras atividades ilícitas que se conectam com o narcotráfico, como garimpo e extração ilegal de madeira.
“Essa área deixou de ser uma grande área de trânsito, para ser um grande ‘hub’ criminal relacionado ao narcotráfico, o que desperta o interesse das fações criminosas para ter o controlo das principais rotas”, afirmou.
A dimensão territorial do Brasil é um dos principais desafios da segurança pública, e localidades que fazem parte da rota do crime organizado são as mais vulneráveis, explicou.
“A questão é que temos uma dimensão territorial gigantesca, onde o Estado não está em todas as áreas de forma efetiva, o que compromete uma governança institucional, e favorece uma governança criminal”, sublinhou.
As principais rotas identificadas pela PF e pela Senappen para o escoamento do tráfico intercontinental de drogas pela via fluvial na Amazónia são a utilização dos Rios Negros, que nasce na Colômbia, e o Rio Solimões, que nasce no Peru, os rios Acre e Iaco.
A PF destaca, ainda em particular, rotas aéreas com helicópteros e aviões clandestinos, sem detalhar, no entanto, pontos de pouso.
Já as vias terrestres mapeadas, são duas grandes rodovias, como a BR-317 que nasce na fronteira do Peru com o estado brasileiro do Acre e segue até o estado do Amazonas.
Segundo a PF, esse “fluxo Peru-Bolívia-Acre” do crime organizado é por meio de áreas rurais, em vias não pavimentadas para evitar as forças policiais.
“Há também risco elevado em áreas rurais da Reserva Extrativista Chico Mendes, utilizadas para desvio de fiscalização”, destacou a corporação.
Já a outra rota terrestre mapeada, agora pela Senappen, é a BR-364, principal rodovia do sudoeste amazónico, que liga o Norte do Brasil, ao Centro-Oeste e ao Sudeste do Brasil, iniciando do Acre até São Paulo.
Em resposta à CPI do Crime Organizado, a Senappen informou que o Brasil tem atuado em cooperação com outras forças de segurança, inclusive com atuação conjunta dos países amazónicos.
A influência e atuação do crime organizado dentro dos presídios brasileiros ainda é um problema no país, o que se estende também para atuação do PCC e do CV nos estados da Amazónia brasileira.
Nesse sentido, o relatório da Senappen informa que, para além do monitorizar a população reclusa com produção de informações de inteligência, o órgão tem coordenado operações para apreender telemóveis nas unidades prisionais.
A Lusa apurou que entre 2023 e março deste ano o órgão federal retirou 7.966 telemóveis das mãos de presos em todo o país.
Já Polícia Federal brasileira informou a CPI do Crime Organizado que existe integração de operações com as forças estaduais brasileiras e cooperação pontual com autoridades do Peru e Bolívia, mas que ainda assim não são suficientes.
“Especialmente em operações conjuntas e troca de informações para desarticulação de rotas. Recomenda-se ampliar acordos bilaterais e mecanismos de inteligência compartilhada”, destacou.
A corporação apresentou ainda sugestões para reforçar a segurança pública na região, como intensificação da fiscalização de caminhões na fronteira, “diante do aumento do fluxo comercial com a abertura do novo porto chinês no Peru”.
Implementação de inspeção por raio-x em cargas e bagagens de turismo é outra sugestão da PF para além de ações regulares de patrulhamento terrestre e fluvial em áreas críticas.
Ampliação da cooperação internacional com Peru e Bolívia para operações integradas é outro desejo da corporação, juntamente com monitorização aérea e uso de tecnologia para deteção de aeronaves clandestinas.
A corporação também sugere que programas de proteção a extrativistas e comunidades vulneráveis na região seriam importantes para reduzir cooptação daquelas pessoas pelas fações criminosas.
Nesta semana, o Governo brasileiro autorizou a nomeação de mil pessoas aprovadas no concurso da Polícia Federal, como ação para intensificar o combate ao crime organizado.
Na quinta-feira, o Presidente brasileiro, Lula da Silva, disse ainda que mandou regressar delegados emprestados a outras instituições para combater o crime organizado, que, na sua avaliação, estavam “fingindo trabalhar”.
MYMA // JMC
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