Festival Música Viva assume a “Insurgência” perante o estado do mundo

Lisboa, 21 abr 2026 (Lusa) – O Festival Música Viva 2026, a decorrer de 28 de abril a 03 de maio, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, toma por tema a “Insurgência”, perante o estado do mundo, segundo a organização da Miso Music Portugal.

Nesta 32.ª edição, o festival “afirma-se como palco de resistência estética e ética num mundo atravessado por crises profundas”, escreve a associação Miso Music no texto de apresentação do programa, apontando à atualidade marcada pela “consolidação de poderes hegemónicos, o agravamento das desigualdades, a normalização da tirania, o massacre e a erosão progressiva da humanidade e da natureza”.

“Perante este estado do mundo”, prossegue a associação dedicada à nova música, “o festival assume a insurgência como necessidade vital num gesto consciente contra a inércia, o silenciamento e a indiferença”.

Num festival que encerra com o Triplo Concerto de Beethoven e inclui “Quarteto para o Fim do Tempo”, de Olivier Messiaen, na abertura, o programa abrange compositores como Fernando Lopes-Graça, Jorge Peixinho, Steve Reich, Alban Berg e György Ligeti, a par de novos criadores como Pedro Berardinelli, Marta Domingues, Anda Kryeziu, João Quinteiro e Solange Azevedo.

Ao todo são cerca de 30 obras, cinco em estreia absoluta, num total de oito concertos, repartidos pelas salas Bernardo Sassetti e Luis Miguel Cintra do Teatro S. Luiz.

De acordo com a Miso Music Portugal, “a criação musical surge como ato de confronto, de desvio e de recusa, afirmando a arte como arma sensível contra a violência estrutural, a desumanização e a lógica do medo”.

As obras apresentadas “questionam, expõem feridas, abrem fissuras e convocam novas formas de escuta, pensamento e presença”.

O concerto de abertura, pelo Sond’Ar-te Electric Ensemble, sob direção de Guillaume Bourgogne, assume o tema do festival para o programa que abre com um poema da escritora palestiniana Shahd Wadi e segue com novas obras de José Carlos Sousa (“Mafish Mushkila), Carlos Lopes (“in Pulses”) e Pedro Berardinelli.

No encerramento será interpretado “Quarteto para o Fim do Tempo”, de Olivier Messiaen, obra escrita pelo compositor francês quando era prisioneiro dum campo de concentração nazi, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial.

O concerto do segundo dia, pelo Ensemble MPMP, é dedicado à “obra política” de Jorge Peixinho. O programa inclui “CDE”, de 1970, obra com a sigla da Comissão Democrática Eleitoral que ousou apresentar-se às eleições viciadas da ditadura portuguesa no ano anterior, “Elegia a Amílcar Cabral”, de 1973, dedicada ao líder da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, assassinado nesse ano, e “A Aurora do Socialismo (Madrigale Capriccioso)”, composta em 1975–1976.

Este ano, aliás, o festival convida “a palavra poética como ato político e sonoro”. Em cada concerto, “poetas, escritores, atores leem poemas sobre insurgência, resistência e liberdade”, entrando “em diálogo com as obras musicais, ampliando” o sentido de cada encontro.

“A poesia não ilustra a música nem a música ilustra a poesia, mas ambas habitam o mesmo espaço de risco” e recusa da passividade, declara a organização.

Jorge de Sena, Luiz de Camões, Gisela Casimiro, Audre Lorde, Mrika Sefa, Sidónio Muralha, Gonçalo M. Tavares e Mário Dionisio serão ditos por Rosinda Costa, Mrika Sefa, Marta Domingues, João Morales, Joana Santos e Miguel Azguime, compositor, nome fundador da associação Miso Music.

No terceiro concerto, também em 29 de abril, a obra de 1975 do compositor norte-americano Frederik Rzewski “The People United Will Never Be Defeated!” (“O povo unido jamais será vencido”) dá mote ao programa do pianista José Pedro Ribeiro, que também interpretará “Prelúdio, Canção e Dança”, obra inicial de Lopes-Graça. Antes do recital será lida a “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena.

Obras de João Quinteiro (“Pairs — à propos de l’interiorité”), Valerio Sannicandro (“Esercizi di morte”), Marta Domingues (“Sowing snow in cone pots”) e Anda Kryeziu serão interpretadas em piano e percussão pelo Duo Nada Contra, no primeiro concerto de 30 de abril, dia que encerra com a atuação do Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa, dirigido por Pedro Carneiro, em obras de Solange Azevedo (“No Mesmo Espaço”) e Steve Reich (“Drumming”).

Em 02 de maio, sob o tema “Canto da Liberdade”, o Miso String Quartet interpreta Diogo Alvim (“Tlumaczenie”), Doïna Rotaru (“Vivarta”) e Steve Reich (“Different Trains”), enquanto a Sinfonietta de Braga, com a maestrina Rita Castro Blanco, oferece Alban Berg/Theo Verbey (3 peças para orquestra de cordas da “Suite Lírica”), György Ligeti (“Ramifications”), Toru Takemitsu (“Requiem para orquestra de cordas”), Bruno Gabirro (“Rebel/Chaos”) e Carlos Brito Dias (“was birgst du so bang dein Gesicht?”/”Porque esconde o rosto com medo?”), num concerto que abre com estâncias do Canto IV d’”Os Lusíadas” (“[…] A que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente, que perigos, que mortes lhe destinas? […]”)

No último dia, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, com o maestro titular, Pedro Neves, interpreta “Against Silence”, triplo concerto de Miguel Azeguime, e o Triplo Concerto de Beethoven, com Nuno Pinto, em clarinete, Vítor Vieira, violino, Filipe Quaresma, violoncelo, e Elsa Silva, piano.

No Festival Música Viva 2026, conclui a associação Miso Music: “Insurgir é ainda resistir à uniformização do gosto, é criar contra a violência da repetição, é afirmar a arte como lugar de liberdade, imaginação radical e responsabilidade. Num mundo em colapso, a música torna-se um ato de insubmissão e de esperança ativa”.

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