Entre a dança, a música e o surf, jovens autistas encontram um lugar de pertença

Porto, 20 de abril 2026 (Lusa) – Maria do Mar Vieira tem 30 anos, vive em Coimbra, é bailarina e encontrou na dança um espaço de expressão e equilíbrio. Tinha 16 anos quando recebeu o diagnóstico de autismo. “Entrei ali numa espiral. Tive uma depressão gigante. Não saber quem era”, recorda.

Na escola, já conhecia o estigma. “Eu tinha na minha escola um colega que era autista. E eu via como é que o tratavam. Então eu tinha medo.”

Hoje, é bailarina e encontrou na dança uma forma de se expressar. “Ali eu conseguia exprimir-me e dizer aquilo que eu não conseguia dizer em voz alta”, conta. “Foi a dança que sempre me puxou cá para cima. Eu digo que foi a dança que me salvou.”

Fala de conquistas com consciência e emoção. “Sempre que existe algo positivo, alguma conquista, eu agarro-me a elas e celebro-as.”

Para quem procura um caminho, deixa uma ideia simples: “Fazerem aquilo que elas gostam e não desistirem de procurar.”

A importância de encontrar esse espaço é sublinhada pela pediatra do neurodesenvolvimento Micaela Guardiano. “Quando nós nos encontramos num lugar seguro, onde nos realizamos, isso traz-nos sempre felicidade e potencia muito aquilo que nós podemos ser.”

Além do palco, Maria do Mar criou uma página nas redes sociais onde partilha a sua experiência enquanto pessoa autista, numa tentativa de dar voz a quem muitas vezes não a tem e apoiar outras pessoas e famílias.

No Conservatório de Música do Porto, o acordeão marca o percurso de Dinis Ferreira, de 14 anos. Observador e atento a tudo, comunica pouco — mas expressa-se.

“A expressão dele está mais relacionada com a parte da música”, explica o professor José Fangueiro.

A mãe, Alzira Ferreira, encontrou na música um caminho possível. “Eu penso que o ajudou na concentração, dar valor a ele próprio e faz com que ele se sinta mais motivado. Aqui o Dinis é igual aos outros.”

Num quotidiano onde a escola pode ser fonte de frustração — “eu não percebo o que os professores estão a dizer” — a música surge como refúgio. “Ele toca sozinho, dança sozinho, sente-se assim, livre.”

“Eles, gostando, vão sempre sentir-se bem”, resume o professor, sublinhando o impacto na autoconfiança e na motivação.

Mais a norte, em Matosinhos, é no mar que Vicente Proença, de 8 anos, encontra o seu equilíbrio. Apaixonado por carros, identifica-os à distância pelos detalhes dos retrovisores e tejadilhos, e sonha um dia “abrir uma escola de surf nos Açores”.

Antes de entrar na água, hesita. “Só vou apanhar uma onda”, diz. No final, são várias.

“O contacto com a água é um estímulo regulatório”, explica a mãe, Rita Gigante. “Este tipo de desportos ajuda o Vicente a estar mais regulado e a sentir-se muito melhor”.

O impacto estende-se ao dia-a-dia. “Está muito mais focado, muito mais tranquilo” depois do surf.

Para a família, o mais importante é a normalização. “O Vicente aqui não é o Vicente com autismo. É o Vicente.”

Rita acompanha também outras famílias e partilha informação sobre autismo, defendendo maior capacitação da sociedade e entreajuda entre pais.

O instrutor de surf Tiago Fazendeiro acompanha-o há cerca de dois anos. “Somos uma família e abertos a toda a gente”, diz, admitindo não ter formação específica. “Tentamos ir ao encontro das necessidades, e todos temos necessidades.”

Nota evolução sobretudo social. “Ele tem o seu tempo tal e qual como toda a gente”, conta e resume: “Essa autonomia e a parte social é super importante.”

Para a pediatra Micaela Guardiano, estes percursos refletem um princípio essencial. “Cada pessoa é muito diferente, por isso, falar nisto como um todo, é sempre muito abusivo”.

E reforça: “É muito importante não tentarem normalizar a diferença mas perceber como potenciar aquilo que aquela criança tem”.

Mais do que terapias, destaca o papel das experiências. “Precisam de experiências multidiversas, é isso que promove o desenvolvimento”.

Entre o palco, a música e o mar, as histórias cruzam-se numa ideia comum: encontrar um espaço onde seja possível crescer.

Num mês dedicado à consciencialização do Autismo, a mensagem é de normalização: mais do que encaixar num padrão, o desafio está em permitir que cada pessoa encontre o seu lugar — e nele, autonomia, equilíbrio e pertença.

*** José Coelho (fotos e texto), da agência Lusa ***

JC//LIL

Lusa/Fim