Moçambique reconhece precariedade e elevado risco do trabalho artístico e cultural

Maputo, 16 abr 2026 (Lusa) – A secretária de Estado da Cultura de Moçambique reconheceu hoje a precariedade e elevado risco do trabalho artístico e cultural no país, considerando que o Estatuto do Artista, que propõe a criação da carteira, responde a problemas do setor.

“A Lei do Trabalho de Moçambique reconhece que há uma especificidade em relação ao trabalho artístico e guarda-o para que ele possa ser regulado na especificidade e é exatamente isso que nós estamos a fazer. A proposta do Estatuto do Artista responde a problemas reais propondo medidas concretas”, disse Matilde Muocha, secretária de Estado das Artes e Cultura, em Maputo.

Durante a abertura do Seminário de Harmonização da Proposta do Estatuto do Artista Moçambicano, a responsável reconheceu a necessidade do registo e da emissão de uma carteira profissional para a classe, referindo que o documento oficial de identificação profissional, prosseguiu, será emitido pelo Estado e reconhecido em todo o território nacional e internacional.

“Esta não é uma formalidade burocrática, é o reconhecimento de que ser artista é uma profissão legítima, com estatuto próprio, com direitos e com deveres”, explicou Muocha.

A secretária de Estado da Cultura disse ser necessário haver também um enquadramento laboral específico, já que o trabalho artístico tem uma natureza própria, sendo intermitente, sazonal e, por vezes, simultâneo em vários contratos, e a lei laboral nacional não abrange suficientemente esta realidade.

“Em terceiro lugar, a segurança social. Independentemente do artista trabalhar por conta própria, ou de outrem (…) a proposta estabelece uma cobertura obrigatória de segurança social. Quem criou obras durante décadas não pode terminar a sua vida sem proteção”, acrescentou a responsável, reiterando ser uma questão de dignidade.

Em quarto plano, Muocha referiu que o Estatuto do Artista, em debate, propõe ainda a criação de um fundo de apoio social, mecanismo de suporte específico para o setor, alimentada pelas contribuições e gerido de forma transparente para o conhecimento de todos.

Para a responsável, há também a necessidade de um regime fiscal que enquadra o artista no regime das micro, pequenas e médias empresas, “com todos os incentivos que daí decorrem”, isentando-os do pagamento do Imposto sobre Valor Acrescentando (IVA) e de direitos aduaneiros na importação de equipamentos e instrumentos musicais.

“Reconhecemos que a nível nacional não produzimos os instrumentos de trabalho do trabalhador da arte. Por causa disso, queremos criar este benefício e já é criado, mas a sua exequibilidade depende de conferir o estatuto ao próprio artista para que possa beneficiar deste direito”, disse a fonte.

A responsável avançou ainda que o Estatuto do Artista é uma mensagem clara de que o Governo acredita que a cultura não é luxo, mas uma estrutura para coesão social e crescimento económico. 

“O setor cultural e criativo representa, em alguns países que tivemos a oportunidade de analisar, cerca de 3 a 5% do PIB [Produto Interno Bruto] nacional. Moçambique tem um potencial humano e a diversidade cultural para ambicionar esse horizonte, mas precisa de um elemento fundacional, cuidar primeiro do criador”, assinalou Matilde Muocha.

LCE // JMC

Lusa/Fim