
Maputo, 14 abr 2026 (Lusa) – A Universidade Save (UniSave) outorgou hoje, postumamente, o primeiro título de doutora ‘honoris causa’ a Josina Machel, referência da emancipação feminina e heroína da luta de libertação nacional de Moçambique.
O título, 55 anos após a morte de Josina Abiathar Muthemba Machel, pela faculdade de Letras e Ciências Sociais da Unisave, em Gaza, sul de Moçambique, vem em reconhecimento ao seu papel nos “Serviços sociais, género e liderança” no país, segundo a instituição.
Assistiram à cerimónia de hoje, além do único filho de Josina, Samora Machel Júnior – a quem o título foi entregue – e outros familiares, o Presidente da República, Daniel Chapo, e os antigos chefes de Estado Joaquim Chissano e Armando Guebuza.
Na sua intervenção durante o evento, Samora Júnior assinalou que Josina é frequentemente evocada como exemplo da mulher na luta pela igualdade de género, destacando o ter abdicado da sua formação académica para se dedicar à causa do povo. No entanto, segundo ele, pouco se tem dito e escrito sobre aquilo que, de facto, fez dela uma referência maior na luta pela transformação da sociedade, um exemplo vivo que persiste e que deve ser continuado pela atual sociedade moçambicana.
“Em 1967, Josina Machel esteve na Fundação do Departamento da Mulher da Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique], fez treino político-militar e participou no Segundo Congresso, realizado no Niassa em 1968. Chefiou a secção da mulher no Departamento de Relações Exteriores”, disse.
Como combatente de luta de libertação, prosseguiu Samora Júnior, o principal legado que deixou expressa-se na organização da educação política para a integração das mulheres na luta armada e em centros de educação nas zonas libertadas durante a luta anticolonial.
“Eu, como centenas de outros órfãos e filhos de combatentes, cujos pais estavam nas frentes de combate, beneficiamos diretamente do trabalho desenvolvido por Josina Machel, que teve a visão de perceber que [para] às crianças era necessário dar atenção familiar, alimentar, tratar, educar e proteger fisicamente, social e moralmente”, acrescentou.
Catarina Nhampossa, reitora da UniSave, explicou que a atribuição do título de doutora ‘honoris causa’ a Josina Machel (1945-1971) se fundamenta na convergência entre “a sua notável intervenção social, a liderança exemplar e o impacto profundo das suas ações na emancipação da mulher”.
Segundo a reitora, estes elementos configuram um mérito de elevada relevância académica e social.
“Josina Machel é mundialmente conhecida como símbolo da luta pela equidade de género e pela emancipação da mulher moçambicana. A sua coragem, entrega, ideais, visão e dedicação continuam a inspirar gerações na procura do bem-estar coletivo”, disse, acrescentando que as suas ações são objeto de reconhecimento nacional e internacionalmente.
Para Catarina Nhampossa, Josina – que se alistou aos 18 anos na Frelimo, movimento de libertação, em 1963, numa altura em que se intensificava a luta armada contra o colonialismo português -, destacou-se por sua intervenção “profundamente estruturada, humana e visionária”, com ações organizadas, estratégicas e orientadas para o desenvolvimento humano.
Para a reitora, a heroína moçambicana foi revolucionária, num contexto marcado por fortes desigualdades e, sobretudo, discriminação das mulheres, tendo sido capaz de questionar e transformar conceções sociais tradicionais que “relegavam ao segundo plano o papel da mulher na luta de libertação nacional, fazendo valer que as desigualdades de género são construções sociais que podem e devem ser transformadas”.
Josina Machel foi uma das principais figuras femininas da luta de libertação nacional, cuja morte por doença, a 07 de abril de 1971, na Tanzânia, deu origem ao Dia da Mulher Moçambicana.
LCE // ANP
Lusa/Fim
