Van Aert superou os azares e Pogacar para conquistar uma emocionante Paris-Roubaix

Roubaix, França, 12 abr 2026 (Lusa) — O ciclista Wout van Aert concretizou hoje o sonho de uma vida, conquistando a Paris-Roubaix diante de Tadej Pogacar, o esloveno que ficou à porta de um encontro com a história numa emocionante 123.ª edição do ‘Inferno do Norte’.

Os dois superaram uma sucessão de azares nos 258,3 quilómetros desde Compiègne, destacaram-se a mais de 50 quilómetros da meta e entraram isolados no Velódromo de Roubaix, com o ‘eterno segundo’ a bater o grande favorito ao sprint.

“Isto significa tudo para mim. É o meu objetivo desde 2018, quando me estreei nesta corrida e perdi o meu colega Michael Goolaerts. Desde aí foi o meu objetivo, vencer aqui e apontar o meu dedo para o céu em homenagem a ele”, assumiu emocionado o belga da Visma-Lease a Bike, referindo-se ao seu colega e compatriota que morreu, aos 23 anos, na sequência da uma paragem cardíaca durante a clássica francesa.

Hoje, finalmente, Van Aert ultrapassou anos de frustrações e infortúnios para conquistar o ‘Inferno do Norte’, impedindo Pogacar (UAE Emirates) de tornar-se no quarto ciclista da história a conquistar os cinco ‘Monumentos’ — os outros são a Milão-San Remo, a Volta a Flandres, a Liège-Bastogne-Liège e a Volta à Lombardia.

Vencedor pela terceira vez da Flandres e do seu 12.º ‘Monumento’ há exatamente uma semana, ‘Pogi’ acusou o desgaste de vários azares, que o levaram a mudar três vezes de bicicleta, e não conseguiu deixar para trás ‘WVA’, que se impôs ao sprint após 05:16.52 horas.

O terceiro, a 13 segundos, foi o também belga Jasper Stuyven (Soudal Quick-Step), com o tricampeão em título Mathieu van der Poel (Alpecin-Premier Tech), outro dos azarados do dia, a protagonizar uma épica recuperação para ser quarto, a 15.

Foram muitos os ataques nos quilómetros iniciais, mas os candidatos a integrar uma fuga eram tantos que esta não se formou, acabando por ser o vento a ‘separar’ o pelotão, a 190 quilómetros da meta, com Van der Poel e Van Aert a ficarem no segundo grupo e Pogacar.

O ‘susto’ durou escassos quilómetros, mas obrigou o bicampeão mundial de fundo, sem qualquer companheiro a escudá-lo, a um desgaste desnecessário.

Mads Pedersen (Lidl-Trek) foi o primeiro dos favoritos a ter um problema mecânico, seguindo-se o sempre azarado ‘WVA’ uma dezena de quilómetros depois, numa altura em que o português António Morgado impunha um ritmo elevado na frente do pelotão para ir eliminando a concorrência do seu líder esloveno.

Mas nem ‘Pogi’ se livrou dos furos, sendo obrigado a trocar de bicicleta — para uma do carro neutro –, sem que nenhum colega descaísse para ajudá-lo.

Pouco depois, o melhor ciclista da atualidade ainda trocou novamente de bicicleta, para uma das suas, momento aproveitado pelos seus companheiros, nomeadamente Morgado, para finalmente parar para ‘rebocar’ o esloveno.

O ‘Inferno do Norte’ voltou a fazer jus ao seu nome, revelando-se verdadeiramente infernal para o líder da UAE Emirates, que, perante a incapacidade dos seus colegas, teve de assumir a perseguição, conseguindo reentrar no pelotão apenas mais de duas dezenas de quilómetros depois.

Quase ao mesmo tempo, na entrada no Trouée d’Arenberg, Van der Poel foi eliminado: num momento em que Van Aert acelerava na frente, o neerlandês saiu de estrada, viu o generoso Jasper Philipsen entregar-lhe a sua bicicleta, mas não conseguiu encaixar os sapatos, uma vez que o seu colega estava a testar um protótipo de pedal diferente do seu.

Já com quase dois minutos perdidos, o tricampeão da Paris-Roubaix recebeu outra bicicleta, mas furou, ficando irremediavelmente afastado do seu encontro com a história — procurava igualar os recordistas Tom Boonen e Roger De Vlaeminck.

Após o Arenberg, ficaram na frente ‘WVA’ e o seu colega Christophe Laporte, Pedersen, Stuyven, Stefan Bissegger (Decathlon), Laurence Pithie (Red Bull-BORA-hansgrohe) e Pogacar, que teve um novo problema mecânico a 72 quilómetros do final, antes de Van Aert também mudar de bicicleta.

Numa das mais acidentadas edições dos últimos anos para os favoritos, o esloveno recolou ao grupo da frente.

Numa altura em que os perseguidores, comandados pelo neerlandês da Alpecin-Premier Tech, se estavam a aproximar, o corredor da Visma-Lease a Bike atacou e apenas ‘Pogi’ conseguiu seguir na roda do belga, com o duo a aumentar paulatinamente a vantagem para os perseguidores.

A margem ainda caiu à entrada dos derradeiros 20 quilómetros, por obra de ‘MVDP’, mas os perseguidores não conseguiram chegar ao duo da frente, que discutiu entre si a vitória.

“Não há forma mais bonita do que ir para a linha de meta com o campeão do mundo. […] Causou-me tantas dificuldades, mas batê-lo ‘mano a mano’ é muito especial”, confessou o belga, que conquistou hoje o seu segundo ‘Monumento’, após a Milão-San Remo de 2020, e festejou com lágrimas e em família.

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