
Londres, 07 abr 2026 (Lusa) – A consultora Oxford Economics considerou hoje que o pagamento da dívida de Moçambique ao Fundo Monetário Internacional (FMI) é “um sinal de desespero” devido à necessidade de ajuda financeira externa, sendo “uma tentativa ousada” de garantir financiamento.
“Liquidar a dívida antecipadamente e na totalidade é normalmente considerado uma medida financeiramente responsável e, como tal, seria fácil interpretar a última medida de Moçambique como um sinal de prudência fiscal; no entanto, é mais correto reinterpretar as ações do país como um sinal de desespero”, escrevem os analistas num comentário ao pagamento da dívida de Moçambique ao FMI, no total de cerca de 630 milhões de euros.
“O recente pagamento de Moçambique é uma tentativa ousada de obter mais crédito do FMI; de facto, esperamos que tal acordo de empréstimo seja finalizado no segundo trimestre de 2026”, acrescentam os analistas do departamento africano desta consultora britânica, alertando que “um novo empréstimo elevará a dívida pública do país para um valor projetado de 125% do PIB, antes que os efeitos diferidos da consolidação orçamental a reduzam a médio prazo”.
No comentário enviado aos clientes, a que a Lusa teve acesso, a Oxford Economics considera que “há uma certa ironia no recente pagamento da dívida de Moçambique ao FMI” e lembra que este país lusófono africano “enfrenta pressões orçamentais e externas consideráveis devido a um imenso peso da dívida pública e a uma moeda sobrevalorizada”.
De acordo com a análise sobre a sustentabilidade da dívida, feita pelo FMI, Moçambique está em sobre-endividamento (‘debt distress’, no original em inglês) e necessita de ajuda internacional, seja através de doadores, empréstimos ou emissões de dívida, para equilibrar o orçamento.
“As autoridades financeiras precisam desesperadamente de assistência financeira externa para evitar novas calamidades económicas”, aponta a consultora, exemplificando que “o encerramento da fundição de alumínio da Mozal e a guerra entre os EUA e Israel e o Irão tornaram essa assistência ainda mais urgente”, num contexto em que Moçambique “depende fortemente das importações, e os preços mais elevados do petróleo irão em breve traduzir-se em preços mais elevados para fertilizantes, alimentos, energia e fatores de produção”.
O comentário da Oxford Economics surge depois de o Ministério das Finanças de Moçambique ter confirmado que fez uma “amortização integral e antecipada” de 630 milhões de euros junto do FMI, liquidando financiamentos contraídos no âmbito do Fundo para a Redução da Pobreza e o Crescimento (PRGT).
Em comunicado na semana passada, o governo diz que procedeu ao “reembolso antecipado da totalidade das obrigações” de Moçambique “associadas” ao programa PRGT do Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor total de 698.587,604 milhões de dólares (630 milhões de euros).
“As autoridades continuam a colaborar ativamente com a equipa técnica do FMI na estrutura de um novo programa, a fim de preservar a estabilidade macroeconómica e promover o desenvolvimento a longo prazo do país, em benefício dos seus cidadãos; as autoridades continuarão a colaborar com a equipa técnica e os quadros superiores do FMI durante as próximas reuniões da primavera do Banco Mundial e do FMI”, acrescenta-se no comunicado.
Hoje, a ministra das Finanças moçambicana disse que o Governo pagou o total da dívida de 630 milhões de euros ao FMI com as reservas líquidas internacionais, garantindo que a decisão não compromete as instituições do Estado.
“Nós pagámos o serviço da dívida que temos com o FMI com recurso a reservas internacionais líquidas do país, então, são reservas que já dispõem ou que estão disponíveis a nível das instituições financeiras internacionais”, explicou Carla Loveira.
A ministra detalhou que os recursos usados “são posições financeiras que o país tem, de tal sorte que não houve, sequer, a necessidade de haver a alteração orçamental para esta finalidade”.
Para Carla Loveira, não há nenhum risco de comprometer o funcionamento das instituições do Estado moçambicanas com o pagamento da dívida, “uma vez que não foi feito (…) com o orçamento do Estado”.
MBA (PVJ/VIYS) // MLL
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