Cabrita Reis leva a Veneza “visão pessoal” da Via Sacra em 14 pinturas inéditas

Lisboa, 04 abr 2026 (Lusa) — O artista plástico português Pedro Cabrita Reis vai inaugurar em maio, em Veneza, uma exposição que revisita a Via Sacra, numa “visão pessoal” da Paixão de Cristo, com 14 pinturas inéditas em diálogo com a história da pintura europeia.

Trata-se de um projeto independente intitulado “XIV Steps” (“XIV Passos”), tantos como as estações da Paixão, patente de 04 de maio a 22 de novembro, paralelamente à Bienal de Arte de Veneza, indicou o artista em entrevista à agência Lusa.

“Esta temática interessa-me, não necessariamente por motivos de ordem teológica ou religiosa, mas porque é um tema transversal na História da pintura europeia, e a mim o que me interessa enquanto artista é refletir única e exclusivamente sobre a História da Pintura”, disse.

A nova exposição, organizada em colaboração com a Academia de Belas Artes de Veneza e a Venice Art Factory, decorre no Magazzino del Sale 3, um espaço histórico na zona de Dorsoduro, nas margens do Grande Canal, e embora coincida com a 61.ª Bienal de Arte, trata-se de um evento paralelo e independente, fora da seleção oficial e do Pavilhão de Portugal.

O artista sublinha que esta é a sua sexta presença na cidade italiana, durante a Bienal de Veneza, desde 1995, entre participações oficiais e projetos autónomos: “Fui representante de Portugal em 2003, nos outros casos foram projetos ou por convites diretos da Bienal de Veneza, ou os organizados por mim com os curadores com quem escolhi trabalhar”, recordou.

O projeto reúne 14 dípticos, cada um composto por duas telas de dois metros de altura por três de comprimento, executados a óleo. A estrutura segue as 14 estações da Via Sacra, narrativa central da tradição cristã que descreve o percurso de Jesus Cristo até à deposição no túmulo.

A exposição é descrita pelo artista como uma visão contemporânea desta “Paixão”, entendida simultaneamente como sofrimento e entrega, mas ao mesmo tempo como reflexão sobre a condição humana ligada à opressão e necessidade de superação e redenção.

“É uma história de horror e de paixão, de dor, também aqui entendida como uma dádiva que é consubstanciada na morte. Estas pinturas trazem murmúrios de uma história antiga e, através deles, chega-nos um grito contemporâneo de recusa perante a perpetuação da violência e da aniquilação da esperança”, considerou o artista nascido em 1956, uma das figuras mais influentes e internacionais da arte contemporânea portuguesa, com uma carreira que se estende por cinco décadas.

As instalações e esculturas de Pedro Cabrita Reis, muitas vezes de escala monumental, desafiam habitualmente a perceção do espectador e estabelecem um diálogo direto com a arquitetura e a paisagem onde se inserem.

“É o que eu quero fazer e é importante para mim, enquanto artista, refletir sobre o tesouro que me foi deixado por outros artistas que me precederam no tempo, e levá-lo, de uma outra forma, pessoal, mais além”, disse, sobre uma obra marcada pela exploração poética do espaço, da luz e da memória, utilizando frequentemente materiais de construção e objetos do quotidiano como vigas de ferro, vidro, tijolos e tubos de néon.

“Há dois anos decidi começar a desenvolver algumas aproximações a este tema da Via Sacra”, disse à Lusa o artista, sobre o conhecido “Caminho da Cruz”, uma iconografia de devoção cristã, especialmente católica, que recorda o trajeto de Jesus Cristo desde o tribunal do prefeito romano da Judeia, Pôncio Pilatos, até ao Calvário e ao seu sepultamento.

Segundo os Evangelhos, textos centrais das Escrituras Cristãs e a primeira parte do Novo Testamento da Bíblia, Pilatos não encontrou culpa em Jesus e hesitou em condená-lo. No entanto, para evitar uma revolta popular e por pressão das autoridades religiosas locais, acabou por sentenciá-lo à crucificação.

Para Cabrita Reis, a apresentação em Veneza mantém-se central no percurso de qualquer artista: “A Bienal de Veneza tem mais de cem anos e é o local onde os artistas querem colocar o seu trabalho ao juízo do público, confrontá-lo com o trabalho de outros artistas. É também um lugar por excelência onde as pessoas se deslocam para ver e perceber os novos pensamentos que assistem à criação artística”.

“Veneza é uma cidade maravilhosa onde eu gosto muito de estar, e se um artista se inspira com tudo o que lhe acontece na vida, podemos dizer, de uma forma generosa, que Veneza inspira-me como inspirou muitos outros artistas no passado”, disse, sobre a sua relação pessoal com a cidade.

Neste novo trabalho, rejeita a ideia de um regresso à pintura: “Não é um regresso à pintura, é uma continuação do que eu sou estruturalmente. Eu sou um pintor que também faz esculturas, e sou na verdade um artista de prática multidisciplinar”.

Cabrita Reis acredita que “os artistas têm liberdade e exercem-na, e o que precisam é de condições para trabalhar, divulgar a sua obra e torná-la visível aos outros”.

Figura influente da arte contemporânea portuguesa, está representado em coleções como a Tate Modern, em Londres, o Centro Pompidou, em Paris, o Museu Nacional Rainha Sofia, em Madrid, o Museu Tamayo de Arte Contemporânea, na Cidade do México, e a Art Gallery de Ontario.

Na cidade de Veneza, apresentou, entre outras intervenções, “A Remote Whisper”, no Palazzo Falier, em 2013, com uma instalação que ligava todas as divisões do palácio, levando o visitante a seguir o rasto dos cabos e luzes, e “Field”, em 2022, na Igreja de San Fantin, com antigos materiais recuperados e luzes industriais modernas instalados dentro do templo renascentista clássico.

Em 2024, apresentou em Lisboa a exposição “Atelier”, uma retrospetiva de 50 anos de trabalho que reuniu cerca de 1500 obras e atraiu mais de 17 mil visitantes.

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