ENTREVISTA: Prodígio edita hoje “A última ceia do bandido” álbum criado como se fosse o último

Lisboa, 03 abr 2026 (Lusa) — O ‘rapper’ luso-angolano Prodígio edita hoje “A última ceia do bandido”, o álbum “mais consciente” e “mais sincero” que já gravou, criado como se fosse o último da carreira, para “fechar a cortina”.

Prodígio (Osvaldo Moniz), de 37 anos, que atualmente vive entre Luanda e Santarém, nasceu em Angola e mudou-se para Portugal em criança. Começou a fazer música com 11 anos, mas só aos 22 editaria o primeiro álbum, “O Alquimista”, depois de alguns anos em Londres a estudar.

O trabalho que hoje edita, “A última ceia o bandido”, mostra-o mais consciente da pessoa que é agora. “É um álbum mais sincero, é um álbum que é o álbum perfeito entre a minha verdade e as minhas aspirações”, disse em entrevista à agência Lusa, em Lisboa.

Prodígio, que também faz parte do coletivo Força Suprema, sente que começou a mudar em 2020, ano em que a vida o atropelou, com a concretização daquele que era o seu “maior medo”: perder o pai.

“Era a pessoa que eu tinha mais próxima. Durante a maior parte da minha vida vivi a pensar o que é que o meu pai pensaria. Quando eu fosse julgar alguma coisa, quando analisava se ia fazer algo ou não, das primeiras coisas que me passavam pela cabeça era ‘o que é que o meu pai diria se eu fizesse isso?'”, partilhou.

Depois da morte do pai, o ‘rapper’ passou a sentir as coisas de outra forma. “E uma das coisas que deixei de sentir igual foi a música. Comecei a ficar com medo, porque fiz música a minha vida inteira. E quando comecei a ficar com medo de perder esse bichinho no umbigo, fui gravar oito álbuns num ano”, contou.

Entre 2021 e 2022, Prodígio gravou oito projetos. “Fiquei doente, quase perdi a sanidade, e fiquei um tempo sem fazer música”, recordou.

A dada altura, já a sentir-se melhor, começou a pensar como seria “se fosse para fechar a cortina”. “Como é que eu gostaria de me ir embora?”, questionou-se, partilhando que acredita que um artista nunca se aposenta da música.

Prodígio não queria “vender aos fãs” a ideia de que o novo álbum representa um ponto final na carreira, mas começou a imaginar como gostaria de fazê-lo, caso tivesse tomado essa decisão, e o passo seguinte foi começar a trabalhar no álbum que é hoje editado.

“A última ceia do bandido”, que levou dois anos a ser feito, nasceu para ser o álbum que representa o que é o rap português hoje.

“Queria que fosse uma coisa que, se daqui a uns anos, quando as máquinas nos dominarem e vierem para aqui extraterrestres e perguntarem como é que era o rap em português, ouçam este disco e digam que era assim que era feito”, afirmou.

Para isso, convidou vários artistas para se juntarem a ele, até porque não queria um álbum que dependesse inteiramente de si.

“Eu devo ter, sei lá, não sei quantos trabalhos tenho, quase 30. Então, não acho que o álbum precisasse depender de mim, que fosse tudo sobre mim. Queria colaborar com pessoas de quem sou fã, pessoas que tenho ouvido, pessoas com quem já trabalhei, que representam muito, que me ajudaram também a trilhar o meu próprio caminho. E sangue novo, pessoas a quem estou atento, que estou a ver, produtores daqui, produtores de Angola, produtores de fora”, disse.

A lista de nomes envolvidos no álbum inclui Valete, Slow J, Stereossauro, Ghetto Ace, T-Rex, Anna Joyce, Smash, Gson, Bispo, Shalom e Yuri da Cunha, entre outros.

Os títulos das 12 faixas do álbum servem de fio condutor a uma história, que Prodígio quis “pintar quase como um puzzle, um casamento perfeito”.

Em temas como “A fé”, “A salvação”, “A virgem Maria” ou “O novo testamento”, aborda questões como a culpa, desigualdades e julgamento.

Prodígio, que passou grande parte da vida no bairro da Serra das Minas, em Rio de Mouro, no concelho de Sintra, partilhou que ao longo da vida sentiu muitas vezes o julgamento dos outros, nomeadamente quando era olhado como um bandido, tantas que acabou por acreditar que era assim.

O título do álbum reflete isso. “Porque é a minha [ceia]. É assim que muitas vezes eu me vi, é assim que muitas vezes eu fui visto, e talvez seja a última vez que eu queira ser visto desta forma”, afirmou, partilhando que ao longo da vida viu acontecer tanta coisa, que acabou por começar a olhar para si mesmo de uma forma diferente.

Prodígio garante que “A última ceia do bandido” será apresentado ao vivo, em Luanda e Lisboa, “porque é um álbum que merece ser celebrado”, mas escusou-se a adiantar detalhes sobre os concertos.

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