
Lisboa, 29 mar 2026 (Lusa) — “Rei Lear”, tragédia de William Shakespeare que o Teatro do Bairro, em Lisboa, estreia na próxima sexta-feira, é um tratado sobre o poder e a loucura, a velhice e a bajulação, a ingratidão, o narcisismo e a fragilidade do ser humano.
Encenada por António Pires, que a ergueu a partir da tradução feita por Álvaro Cunhal, nos anos de prisão política, na década de 1950, a peça “é muito fiel” à tradução, “quase não tem alterações” e, apesar de “alguns ajustes e alguma substituição de palavras para ficar um bocado mais dizível”, tudo foi feito “com base nas notas do tradutor”, disse o encenador à agência Lusa.
“Quase se pode dizer que é uma versão na íntegra” da tradução portuguesa de Cunhal, com todas as cenas da tragédia, embora tenha sido necessário “reduzir algumas” para não ficar um espetáculo “muito longo”, disse António Pires à agência Lusa.
A tradução foi publicada anonimamente, pela primeira vez, na década de 1960, pela Tipografia Scarpa. Em 2002, a editorial Caminho fez uma edição, já identificada, com anotações e desenhos de Cunhal. Esta mesma versão viria a ser reeditada em 2018 pela Página a Página, também com a nota do tradutor e a introdução de Luís de Sousa Rebelo, catedrático do King’s College, em Londres.
Das tragédias mais conhecidas de Shakespeare, “Rei Lear” fala do soberano que, a determinada altura, decide abdicar e dividir o reino pelas três filhas – Goneril, Regan e Cordélia – exigindo delas uma prova de amor, completa devoção.
Lear desencadeia assim um jogo político que rapidamente se volta contra si mesmo.
As duas filhas mais velhas, falsas e gananciosas, enganam o pai, bajulando-o, enquanto Cordélia, com a sua sinceridade, assertividade e humildade, acaba deserdada, hostilizada e humilhada pelo pai, vendo-se obrigada a abandonar o reino.
Lear permanece com Goneril e Regan, que de imediato, conquistado o trono, também o humilham e desprezam. O rei percebe então o erro que cometeu, a traição de que foi alvo, mas é demasiado tarde.
Expulso do poder e traído pelas alianças que julgava seguras, vagueia num mundo que já não lhe pertence. Perdido na floresta, debaixo de uma tempestade enlouquece, revelando afinal a fragilidade do poder e da própria condição humana.
Cordélia regressará ao reino com um exército para salvar o pai, mas ambos são capturados. Cornelia é executada e Lear morre de dor e de desgosto com o corpo da filha mais nova nos braços.
António Pires vai direto ao assunto, ao dizer que “Rei Lear” é “uma tragédia sobre alguém com muito poder e que acha que pode fazer tudo”, acrescentando a sorrir, que vai “parecer um bocado igual a umas coisas que se andam a passar”.
A cenografia é marcada por três grandes paredes a toda a altura do palco, que as personagens rodam, levando a ação para os diferentes cenários.
“Rei Lear” é, para António Pires “um texto muito teatral”, não só entre as mais conhecidas e representadas peças de Shakespeare. Para o encenador, é também o texto d’O Bardo que “tem tudo de Shakespeare, todos os ingredientes”.
“Parece que quase todas as coisas de Shakespeare estão ali: os venenos, as mortes, arrancar cabeças, tirar olhos… Sei lá. Tudo e mais ainda: vingança, poder, tudo, tudo, quase todos os temas”, acrescentou o encenador.
Questionado sobre qual a maior dificuldade que teve para pôr “Rei Lear” em cena, António Pires disse que “mais do que dificuldades” o que encontrou na peça foi um “imenso material de trabalho” que o “espevita para criar as coisas”.
Material que consiste em “criar uma verdade que seja acessível às pessoas de forma a entregar o texto ao público”, sobretudo quando tem de se confrontar com uma personagem que está para morrer, ferida com uma espada, e que fica “mais cinco páginas a falar”.
Não é raro, em Shakespeare, personagens continuarem a falar depois de mortas, como se nada fosse, observou. Mas o desafio ao erguer esta peça foi “encontrar a teatralidade”, já que, neste texto, “não há a tendência de o teatro imitar a vida”, existe, sim, a necessidade de “criar uma coisa completamente diferente onde todas as situações do texto sejam possíveis”.
Para António Pires, tal “exige um trabalho em que todos os atores e todas as pessoas envolvidas no processo acreditem muito” no que estão a fazer.
“Passar a ser uma verdade e as pessoas irem assistir a uma coisa que só é possível ali, no teatro, durante aquele tempo, naquele espaço”, é uma dificuldade, disse o encenador. “Mas é também uma matéria de trabalho muito prazerosa”, sublinhou.
Sobre o cenário imponente, concebido pelo arquiteto João Mendes Ribeiro, com quem António Pires trabalha com frequência, o encenador disse ter sido elaborado para responder “a uma série de espaços diferentes para que o texto aponta”, pois “Rei Lear” passa-se ora na floresta, ora num precipício em Dover, ora à porta e no interior de três palácios.
Daí que através das grandes paredes que ocupam a boca de cena ora se avistem os palácios, ora a floresta ou o precipício, à medida que a história vai avançando e a ação se desenrola.
Uma das características da peça que fascina o encenador é o facto de todas as personagens serem complexas o que as obriga a construírem-se cena a cena e a e a assumirem o que de mais humano as caracteriza, em todas as dimensões, na sua verdade, do melhor, ao pior.
No caso das irmãs Goneril e Reagan, por exemplo, o encenador alerta para jamais se esperar uma espécie das “irmãs más da Branca de Neve”.
“Nenhuma das personagens se mantém igual do princípio ao fim”, explica. “Eles crescem e ao longo da peça vão mudando sempre”.
“Quem comete o erro na peça é o rei Lear”, que “é uma personagem muito egoísta, uma pessoa horrível, que humilha as filhas perguntando-lhes qual delas gosta mais dele, o que faz com que a partir daí haja uma sucessão de acontecimentos que as leva a ter aquelas atitudes”.
Lear confronta-se depois com “um percurso de sofrimento”, explica António Pires. “Vão-lhe caindo as coisas em cima e acaba na dor maior que é fazer uma ‘Pietà’ com a filha mais nova, morta nos braços”.
A interpretar “Rei Lear” estão Adriano Luz, André Ramos, Carolina Campanela, Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Dinarte Branco, Dinis Gomes, Francisco Vistas, Gonçalo Norton, Hugo Mestre Amaro, Jaime Baeta, João Barbosa, Marcelo Urgeghe, Rodrigo Macghado e Sofia Marques.
Os figurinos são de Luísa Pacheco e na assistência de encenação está Carolina Ferrão.
A peça tem desenho de luz de Rui Seabra, desenho de som de Paulo Abelho, operação de luz de António Serrão e João Madeira e operação de som de Vasco Maciel.
Com produção da Ar de Filmes/Teatro do Bairro, “Rei Lear” estará em cena até 26 de abril, com récitas de quarta-feira a sábado, às 21:00, e, ao domingo, às 17:00.
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