Recriação da luta pelas gravuras rupestres juntou alunos e professores de Foz Côa

Vila Nova de Foz Côa, Guarda, 27 mar 2026 (Lusa) — Mais de 400 alunos e professores do agrupamento de escolas Foz Côa recriaram hoje uma manifestação em defesa da arte rupestre do vale, que se sobrepôs à construção de uma barragem neste território, agora património mundial.

A concentração dos alunos, tal como há 30 anos, partiu da Escola Secundária Tenente Coronel Adão Carrapatoso, em Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, em direção ao largo dos Paços do Concelho, onde, de megafone na mão, foram proferidas palavras de ordem como “as gravuras não sabem nadar” ou “este património é de todos”, sempre ao som da música dos Black Company “Nadar”, que acabaria por se tornar o “hino” das lutas da altura.

Os 430 alunos e professores, depois das palavras alusivas à circunstância proferidas pelas autoridades locais, dirigiram-se para o Museu do Côa (MC), em ambiente de festa, onde cada um expressou o motivo da participação nesta recriação inserida no programa que assinala 30.º aniversário da criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa (PAVC).

À agência Lusa, Maria Pinto, uma aluna do 9.º ano de escolaridade, disse que este foi uma dia que a marcou muito, porque se tratou de uma recriação importante de uma “revolução” que aconteceu há 30 anos.

“Foram jovens estudantes que há cerca de 30 anos fizeram com que a construção da barragem fosse parada, como sabemos, e se então não tivessem sido eles, provavelmente nunca saberíamos o que são as gravuras [rupestres] do Côa como hoje as conhecemos. Não saberíamos o património brutal que nós temos aqui no vale do Côa, é mundial e muito importante porque nos traduz a história dos nossos antepassados”, vincou a jovem aluna.

Segundo Maria Pinto, os estudantes de há 30 anos foram cruciais para que se perceba o que são as gravuras e o que as gerações seguintes pretendem de futuro para este património.

Já outra aluna da mesma escola, Diana Jerónimo, indicou que esta luta dos estudantes de há 30 anos foi um acontecimento muito importante que marcou Vila Nova de Foz Côa, porque quem viveu esta época, se não se tivesse revoltado pela defesa do património e contra a construção da barragem, “as gravuras rupestres passavam despercebidas”.

“As gravuras são agora património mundial e trazem muitas pessoas de várias partes do mundo a visitar Foz Côa, querendo ou não, [o movimento criado há 30 anos] faz parte da nossa história”, vincou Diana Jerónimo.

Também o atual presidente da Associação de Estudantes do Agrupamento de Escola de Foz Côa, José Passeira, avançou que a os membros da associação andaram a mobilizar os jovens para esta iniciativa, como o fez a Associação de Estudantes no passado.

“Fomos informar os alunos, ao longo destes últimos tempos, para a importância desta manifestação, simbólica, bem como para a importância da celebração dos 30 anos do PACV para a comunidade estudantil”, vincou.

Já no final da recriação, o presidente da Fundação Côa Parque, João Paulo Sousa, disse que ficará agora um sentimento de nostalgia e orgulho nesta nova geração de alunos, que recebeu a iniciativa de braços abertos.

“Acho que a partir de hoje a visão que há sobre as gravuras rupestres não será mais a mesma porque que se nota que há uma maior envolvência dos jovens”, disse.

Quanto ao futuro, João Paulo Sousa não descarta um convite ao Presidente da República, António José Seguro, para visitar o PAVC, porque o Chefe de Estado também esteve envolvido nas lutas de há 30 anos, enquanto secretário de Estado da Juventude do primeiro governo de António Guterres (PS).

Quanto a um convite ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o presidente da fundação disse não estar previsto, mas está ciente que António Guterres se vai rever nestas comemorações da criação do PAVC, e nas quais teve responsabilidades, que vão decorrer ao longo do ano.

Também à Lusa, o presidente da Câmara de Foz Côa, Pedro Duarte, destacou o trabalho que tem sido feito para a preservação da Arte do Côa, mas salientou que tem de continuar a ser feito.

“O trabalho de investigação científica não termina e a Câmara está ao lado da fundação na preservação e salvaguarda da arte rupestre do vale do Côa, que é património mundial”, vincou o autarca.

A suspensão da construção da barragem do Côa foi decretada oficialmente a 17 de janeiro de 1996, acompanhada pelo pedido de elaboração de um relatório sobre o valor patrimonial e arqueológico da região pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que permitisse ao Governo uma decisão definitiva e fundamentada sobre o projeto hidroelétrico.

Após as primeiras descobertas feitas no início da década de 90 do século passado, foi criado o PAVC, em 10 de agosto de 1996, onde foram identificadas 190 rochas com arte rupestre.

Atualmente, há 1.511 rochas com arte rupestre, das quais 38 são pintadas, o que representa um total de 15.661 motivos identificados em mais de uma centena de sítios distintos, sendo predominantes as gravuras paleolíticas, executadas há cerca de 30 mil anos, num ciclo artístico que nunca foi interrompido e que ocupa 20 mil hectares.

A Arte do Côa foi classificada como Monumento Nacional em 1997 e, em 1998, como património mundial pela UNESCO.

 *** Francisco Pinto (texto) e Miguel Pereira da Silva (foto), da agência Lusa ***

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