Beatriz Pessoa edita hoje um novo álbum que é “Muito Mais” de si

Lisboa, 27 mar 2026 (Lusa) — A cantora Beatriz Pessoa edita hoje “Muito Mais”, álbum no qual decidiu colocar a timidez de lado, mostrando tudo o que é e do que gosta, e o resultado é música “o mais honesta possível”.

A sonoridade de “Muito Mais” abarca, ao longo das 13 faixas, vários estilos musicais, fazendo deste o álbum mais diverso da cantora. “Acho que nos meus trabalhos anteriores tentei controlar um bocado esse meu lado”, disse Beatriz Pessoa, em entrevista à Lusa.

“Não era propriamente esconder, acho que era só uma espécie de timidez, e neste disco não quis fazer isso. Pelo contrário, quis fazer exatamente o que eu queria. E gosto de muitas coisas diferentes, ouço muita música diferente, vejo, leio muita coisa diferente, e a música saiu o mais honesta possível. Decidi assumir isso e na verdade tenho-me divertido imenso”, afirmou.

Beatriz Pessoa conseguiria ficar “um dia inteiro” a nomear artistas que tem como referências, mas na criação do novo álbum houve uma que a ajudou muito, “especialmente na primeira parte da construção do disco”: a cantora brasileira Rita Lee.

“Sou muito fã da Rita Lee desde miúda, e, há cerca de dois anos, quando comecei a construir o disco, li a autobiografia dela. E li numa fase em que precisava muito de ter vontade de voltar com mais entusiasmo para o meio artístico, embora nunca tenha saído. A autobiografia dela salvou-me muito nesse sentido”, partilhou.

O prefácio da autobiografia de Rita Lee, da autoria de Rui Reininho, uma “super referência”, fez também com que a cantora voltasse a olhar para a obra dos GNR, “especialmente na parte lírica”.

O cantor norte-americano Nat King Cole, a cantora cubana La Lupe, a italiana Mina, o britânico David Bowie, o norte-americano David Byrne, a islandesa Björk, a norte-americana Caroline Polachek e a britânica Kate Bush são outras influências apontadas por Beatriz Pessoa.

A cantora, de 30 anos, que há dez editou o EP de estreia, “Insects”, ao qual se seguiu um outro, “II”, ainda antes do primeiro álbum, “Primaveras” (2020), assume que já pensou, e pensa ainda por vezes, desistir da música: “Acho que faz parte de quem está dentro do meio essa sensação de cansaço, que se vai acumulando”.

O momento de desânimo que antecedeu a criação de “Muito Mais” aconteceu pouco depois de editar o álbum “Prazer Prazer”, num momento em que ainda havia “resquícios da pandemia” e em que se tornou mãe.

“Na minha vida pessoal ser mãe nunca alterou de maneira nenhuma a minha disponibilidade ou a minha participação enquanto artista, mas senti durante algum tempo que de fora havia uma tendência para me protegerem sem eu pedir para ser protegida”, contou.

Nessa altura, viveu uma fase de “uma certa frustração”, por não ter tantos concertos como queria, e que a carreira não estava a crescer, pelo contrário, sentia-a “estagnada”.

“E isso é muito frustrante, especialmente quando somos novos ainda. Mas no meu caso sinto que estou a ser dada como um novo talento e uma nova promessa, de não sei quê, há imenso tempo”, afirmou.

Beatriz sente também alguma frustração, e “vontade de repensar” as suas escolhas, ao sentir que a carreira “depende um bocadinho” da presença nas redes sociais.

“Parece que hoje em dia as valências que são mais valorizadas têm que ver com o outro lado do nosso trabalho, para o qual não nos inscrevemos propriamente. Acho incrível quem tem talento e também gosta dessa parte, mas não é o meu caso. Fico super-ansiosa com a parte da rede social, não é um sítio onde me sinta superconfortável”, partilhou.

A canção “Pó de Palco”, que abre o novo álbum, “nasceu daí”.

“A minha reação a esta frustração foi fazer música sobre isso. Foi um bocado aceitar que se calhar não é o sítio mais saudável para mim, a nível de gestão de expectativas e de ansiedades, mas é o único sítio onde eu quero estar. E nada substitui a sensação de cantar as músicas em palco, ou o processo de construção de um disco, que é uma coisa que me deixa profundamente feliz, satisfeita e realizada”, disse.

Um disco que é “Muito Mais” de Beatriz Pessoa só poderia ter esse título.

Este é o álbum em que a cantora está mais entusiasmada e com mais vontade de o mostrar ao público, e é também aquele onde se sente “mais livre e menos preocupada com a receção”.

“O ‘feedback’ de fora tem sempre importância, obviamente, mas como já me sinto tão confiante e realizada — eu e a minha equipa, as pessoas com quem trabalhei – e estou muito orgulhosa do trabalho que fiz e que fizemos, já não sou tão dependente do orgulho dos outros para sentir orgulho em nós”, afirmou.

O processo de criação de “Muito Mais” aconteceu quase todo em parceria com Gustavo Almeida (Gus), que além de ter coproduzido o álbum, gravou com Beatriz Pessoa o tema que dá nome ao disco.

O entusiasmo de Beatriz Pessoa com o novo trabalho também se deve ao “encontro muito feliz” com Gus.

“Eu e o Gus percebemo-nos mutuamente. Ele sabe exatamente do que é que eu estou a falar e eu sei exatamente do que é que ele está a falar, e isso também trouxe muita felicidade ao processo”, partilhou.

Gus é um dos músicos que acompanha Beatriz Pessoa em palco, a par de Raquel Pimpão (Femme Falafel, convidada no tema “Ai quem me dera”) e Sebastião Bergman.

O primeiro concerto de apresentação de “Muito Mais” está marcado para 11 de abril em Lisboa, na Casa Capitão, e “haverá surpresas” em palco.

JRS // TDI

Lusa/Fim