Carlão passa em revista carreira no novo álbum de originais “Quinta-Essência 75/25”

Lisboa, 26 mar 2026 (Lusa) — Carlão edita na sexta-feira “Quinta-Essência 75/25”, álbum cuja sonoridade passa em revista mais de 30 anos de carreira feitos tanto a solo como em projetos como Algodão, Da Weasel, 5-30 e Os Dias de Raiva.

“Quinta-Essência 75/25”, o terceiro álbum que Carlos Nobre, o Pacman dos Da Weasel, grava enquanto Carlão, surgiu a partir de “vários projetos que acabaram por não ver a luz do dia, separados em EP”, contou, em entrevista à Lusa.

Músicas que foi criando e que, “por uma razão ou outra”, acabou por nunca editar. Em 2024, apercebendo-se que no ano seguinte entraria nos 50 anos, decidiu pegar nelas, “falar com malta que fez parte do percurso até aqui”, para juntar tudo e compor um disco “que cumpre um bocado essa função de reflexão ou retrospetiva”.

Os produtores que escolheu para construir o álbum são pessoas que o ajudaram a definir a sua identidade musical, “por muito diversa que ela seja”: João Nobre, o Jay dos Da Weasel e irmão de Carlão, Fred Ferreira, que fez parte de 5-30 e Os Dias de Raiva, Branko, “que foi muito importante nos últimos anos também”, e a dupla Stereossauro e DJ Ride, porque um dos EP que acabou por não sair era feito com os dois.

Num álbum que atravessa vários estilos, entre rap, ‘spoken word’, eletrónica, hardcore e ritmos de Cabo Verde, as 18 faixas que o compõem estão ligadas pela voz de Carlão, “e a escrita talvez, apesar de ser muito diferente [de umas faixas para as outras]”, que neste álbum é marcada pela reflexão, crítica social e introspeção.

No novo álbum, Carlão aproxima-se um pouco mais das suas raízes, cantando uma música em crioulo. “Muito timidamente eu vou-me aproximando de Cabo Verde. Tenho muito pudor, tenho alguma vergonha também no crioulo, mas vou”, partilhou.

“Nair ki Fla” tinha sido inicialmente gravada para “ALMA”, um álbum feito de poemas de José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde e primo de Carlão, editado em 2022.

Por achar que a sua voz na primeira gravação “não fazia justiça”, por ser um poema “da pessoa que é e que fala de uma tia” sua, Carlão quis que estivesse neste disco. “Então regravei e inclui-a”, disse.

Foi já com 30 anos que Carlão esteve pela primeira vez em Cabo Verde, país onde nasceram os pais. “Isso mudou um bocado a minha perspetiva de algumas coisas e senti uma ligação muito difícil de explicar, aquela quando se sai do avião e se sente que de alguma forma aquilo bate certo”, partilhou.

Inicialmente, Carlão ouvia apenas música anglo-saxónica, “americana, inglesa, tudo o que fosse, mas não queria saber da África, não queria saber de Portugal também”.

“Por isso é que Da Weasel quando nasce [em 1993], nasce com o nome em inglês, a cantarmos em inglês e o português só vem depois, e é a descoberta dessa identidade. Primeiro houve uma identidade portuguesa a ser descoberta e mais tarde uma anterior que é cabo-verdiana, que ainda estou a descobrir”, disse.

Daqui a dez anos, quando chegar aos 60, talvez a identidade cabo-verdiana de Carlão “já esteja mais cimentada”, tanto que se sinta à vontade para gravar “um álbum inteiro” cantado em crioulo.

No tema que encerra “Quinta-Essência 75/25”, “O último canto”, Carlão questiona-se sobre se ainda é relevante na música, se valerá a pena continuar. A resposta é “sim”. “Pelo menos por mais uns tempos ainda vai acontecer”, garantiu.

E em breve estará de volta à estrada para apresentar o novo álbum ao vivo.

JRS // TDI

Lusa/Fim