
Lisboa, 23 mar 2026 (Lusa) — A artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino inaugura na terça-feira a exposição “Terra Poética” no Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, onde reunirá obras de 1975 a 2025 que exploram a dimensão escultórica do seu percurso.
A mostra, a primeira exposição individual da artista num museu em Portugal, “eventualmente a mais vasta que fez até hoje”, segundo a curadoria, propõe um percurso concebido em função da arquitetura da Galeria Oval, articulando desenho, fotografia, escultura e instalação, a partir de uma prática centrada na relação entre corpo, matéria e tempo.
Anna Maria Maiolino “é sem dúvida uma das grandes figuras da arte internacional, e em particular da América Latina, cujo trabalho se foca na ideia de materialidade, através do uso das mãos e a medida do corpo, do corpo feminino em particular, para repensar a relação da sociedade com as coisas e com a vida quotidiana”, descreveu o diretor-adjunto do museu, Sérgio Mah, à agência Lusa, numa visita de pré-inauguração.
Nascida em Itália em 1942 e radicada no Brasil, Maiolino fez parte de movimentos de vanguarda desde a década de 1960, participando na exposição “Nova Objetividade Brasileira” ao lado de artistas conceituados do Brasil como Hélio Oiticica e Lygia Clark.
“É um trabalho cheio de sentido estético e de grande sensibilidade que evoca o trabalho manual de mulheres importantes da vida da artista, a mãe e a avó, que tantas vezes viu a trabalhar as massas para as refeições da família”, indicou o responsável pela curadoria, em conjunto com o diretor do MAAT, João Pinharanda.
Ao longo da rampa expositiva, são apresentados desenhos, fotografias e pequenas esculturas, incluindo parte da série “Tempestade de Ideias”, composta por mais de 100 trabalhos realizados entre 1990 e 2025, descritos pela artista, de 84 anos, como “um verdadeiro ‘storyboard’” do seu pensamento e sentimentos.
Na sala oval, o percurso culmina num conjunto de esculturas de grande escala, entre as quais instalações em argila crua moldadas no local, a partir de cerca de 10 toneladas de barro, envolvendo a artista, a sua equipa e ceramistas locais, indicou Sérgio Mah.
A série resulta de um trabalho dentro da galeria que revela “a maneira como a artista explora a ideia de maternidade, declinada em objetos com várias soluções morfológicas e cromáticas” dispersos por todo o espaço expositivo.
“Estas obras feitas com argila crua têm uma qualidade interessante porque vão variar ao longo da exposição, durante cinco meses. À medida que vai secando, o material muda de tonalidade, e vai-se transformando em pedra. Algumas formas, pelo efeito de gravidade, vão partir-se, portanto são peças que contam a história que tiveram dentro do tempo da exposição”, apontou o curador à Lusa.
As peças “revelam uma atenção profunda às qualidades táteis, ao peso, à fragilidade e às mudanças de uma matéria impermanente” dando continuidade à série “Terra Modelada”, iniciada em 1993, na qual o gesto repetido — enrolar, dividir, acumular — torna visível o tempo inscrito no trabalho manual e o ciclo natural da matéria em transformação.
Para Anna Maria Maiolino, foi no contacto com a argila que se revelou “uma verdadeira cosmovisão”, destacando a sua plasticidade e relação com a ideia de origem, que a tornaram um elemento central no seu trabalho escultórico.
A exposição surge na sequência da participação de Maiolino na Bienal de Veneza 2024, onde foi distinguida com o Leão de Ouro de carreira, reforçando o reconhecimento internacional da sua obra, lembrou Sérgio Mah, referindo algumas das suas exposições individuais mais importantes.
“Vida Afora” (The Drawing Center, Nova Iorque, 2002), “Entre Muitos” (Pinacoteca de São Paulo, 2005), “Continuum”(Camden Arts Centre, Londres, 2010), e “I am here. Estou Aqui” (Musée National Picasso-Paris, 2025), marcaram o seu percurso artístico.
No âmbito da inauguração, a artista apresentará às 18:00, no MAAT, a performance “KA”, pela primeira vez fora do Brasil, uma releitura de “Entrevidas”, criada em 1981 (quatro anos antes do termo da ditadura no Brasil), como um manifesto em defesa da abertura democrática do país, centrado na fragilidade da vida e na resistência do corpo.
“É uma performance realizada há décadas, e que tem revisitado e até incorporado elementos da realidade atual política e social”, disse o curador, lembrando que Anna Maria Maiolino, no decorrer da criação, afirma “Eu sou imigrante”, como um manifesto.
A versão original desta performance será evocada a 30 de agosto, com a apresentação de “Entrevidas 1981/2026”, interpretada por Gabriel Sitchin, ator e neto da artista, assinalando a fase final da exposição.
“Esta exposição acontece num momento muito importante na carreira da artista, porque, depois de ter recebido o Leão de Ouro em Veneza, verificou-se uma forte aclamação crítica e institucional. Teve um reconhecimento tardio, o que acontece com muitos artistas, e sobretudo artistas mulheres, mas hoje é uma das grandes figuras da arte contemporânea internacional”, salientou Sérgio Mah.
O MAAT editará um catálogo da exposição com ensaios de Tania Rivera e Michael Asbury, acompanhando a apresentação de um conjunto de obras que cruzam práticas e linguagens ao longo de cinco décadas.
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