“Notícias” está nas bancas há 100 anos e quer manter-se escola de comunicação em Moçambique

Maputo, 23 mar 2026 (Lusa) – O jornal Notícias, diário mais antigo de Moçambique, quer continuar a ser escola de comunicação ao completar 100 anos, apostando na melhoria das condições de trabalho dos jornalistas e no projeto da editora e gráfica para florescer no mercado.

“Acho que é possível começar a olhar o ‘Notícias’ nesta perspetiva de ser uma semente para várias coisas que foram surgindo na área de comunicação. Mas há uma perspetiva que nunca se perde, que é a perspetiva de ser uma escola onde a comunicação social se foi, de alguma forma, inventando e crescendo”, diz o presidente do conselho de Administração da Sociedade do Notícias, Júlio Manjate, em entrevista à agência Lusa.

O Notícias, com sede em Maputo e cerca de 150 jornalistas em todo o país, saiu à rua pela primeira vez em 15 de abril de 1926, criado pelo português Manuel Simões Vaz, tendo começado a agregar, a partir da década de 1980, produtos como o semanário Domingo e Desafio, além da unidade gráfica com instalações na província de Maputo, sul de Moçambique.

Em 100 anos, o jornal tem funcionado com a perspetiva de contribuir para o bem-estar, informando de forma responsável, diz o administrador: “Funcionou como escola, não só para a formação de profissionais, mas para inspirar estas novas áreas de negócios e áreas de intervenção”.

Há três anos começou a apostar em fornecer serviços de editora, tendo já editado duas obras, com mais quatro na manga, com o Manjate a explicar que não se pretende “dar passos maiores que a perna”, apesar da aposta em novos autores.

Acrescenta que a empresa continua a estudar o mercado, mas encarando o novo negócio sempre “com cautela”.

“Primeiro era preciso criar uma base e estamos um pouco neste exercício de tentar criar uma base sólida, que é para as coisas poderem crescer. Precisamos de ter recursos humanos que estejam unicamente destinados a trabalhar e isto tem implicações financeiras”, explica.

“É preciso não perder de vista a ideia de que estando nós a entrar numa área nova de negócio, não podemos embandeirar em águas. É melhor sempre agir com alguma prudência e saber que há pessoas que já estão a trabalhar na área há muito mais tempo e procurarmos sempre o que se pode aproveitar disso. É uma marca muito interessante, ninguém se recusa a colaborar connosco”, acrescenta Manjate.

Para galvanizar as atividades como editora, o Notícias quer aliar este serviço à gráfica que tem na cidade da Matola, arredores de Maputo.

Ao chegar aos 100 anos de existência, adaptar o matutino nos diversos momentos da história, ao longo dos tempos e mantendo a sua filosofia de “trabalho responsável”, foi um dos maiores desafios.

“Há momentos em que o papel do jornal era fazer educação pública. Há momentos em que o jornal começou a fazer educação cívica das pessoas para aceitarem o multipartidarismo e isto foi feito com a devida mestria. E, neste momento, por exemplo, estamos a fazer um trabalho que é de educação pública para pessoas perceberem que estamos numa fase de aposta na recuperação da economia e tentamos nos ajustar em função das principais mensagens”, diz o presidente do conselho de administração.

Outro desafio da empresa foi a formação de jornalistas, para terem mais habilidades de ler e interpretar diversos fenómenos à sua volta, sobretudo com o advento tecnológico.

“O jornal Notícias vive de recursos próprios. Tudo o que faz para comprar papel, para imprimir, para pagar a jornalistas, pôr jornalistas a viajar. Não somos uma empresa pública que provavelmente teria um contrato-programa com o Estado para receber subvenções. Tudo o que vem sendo feito é com base em recursos próprios, então conseguir recursos para manter, crescer e desenvolver é também outro desafio”, diz.

Atualmente, o objetivo é ainda melhorar os salários dos jornalistas, para um nível “um pouco mais digno”, com a empresa a indicar que quer avançar para a multimédia, precisando apenas de encontrar uma estratégia para encaixar o jornal num mundo digital dominado pelas redes sociais, sem perder a identidade e responsabilidade na informação.

Manjate diz ainda que o atual desafio é melhorar as condições técnicas dos jornalistas, munindo-os de ferramentas para pesquisa, divulgação e distribuição de conteúdos, desejando que todos sejam capazes de operar programas de edição gráfica para os obrigar a diminuir o número de carateres em cada texto.

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