Bloqueio do Estreito de Ormuz limita trânsito de navios a 5% face aos períodos de paz

Paris, 21 mar 2026 (Lusa) – Desde o início do ataque lançado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, apenas um pequeno número de cargueiros e petroleiros, na maioria iranianos, atravessou o Estreito de Ormuz, segundo o observatório para o comércio global, Kpler.

Um total de apenas 116 navios de carga e petroleiros atravessaram o estreito entre 01 e 19 de março, número que representa uma queda de 95% em comparação com os períodos de paz, avança o grupo, com sede em Paris.

Destas travessias, 71 foram realizadas por petroleiros, dos quais mais de metade estavam carregados, e maioria destes navios navegou para leste.

“O tráfego é assegurado principalmente por graneleiros, petroleiros e porta-contentores”, afirmou, por outro lado, segundo a APF, Richard Meade, editor-chefe da Lloyd’s List, revista especializada em informação marítima, durante uma conferência de imprensa na quinta-feira.

“No entanto, constatámos um ligeiro aumento do número de metaneiros em circulação na semana passada”, acrescentou.

A maioria dos navios que atravessam o estreito são navios iranianos ou com pavilhão iraniano, segundo Bridget Diakun, analista da Lloyd’s List Intelligence. Nos últimos dias, os navios gregos representaram 18% das travessias e os navios chineses 10%, precisou a mesma analista na quinta-feira.

“Embora o Irão continue a controlar o estreito e a exportar o seu petróleo, o tráfego permanece, em geral, paralisado”, afirmou Meade.

Desde o início do conflito, mais de um terço dos navios que transitavam pelo estreito estava sujeitos a sanções dos Estados Unidos, europeias ou britânicas, de acordo com uma análise dos dados de passagem realizada pela AFP. Mais de metade dos petroleiros e metaneiros estavam sob sanções, segundo a agência de notícias francesa.

Desde 16 de março, “qualquer navio que se dirija para oeste pertence à frota paralela, quer se trate de metaneiros ou petroleiros… eles dominam largamente o tráfego”, explicou ainda Bridget Diakun durante a conferência de imprensa da Lloyds.

De acordo com um relatório publicado na segunda-feira pelo banco JPMorgan, os analistas de matérias-primas indicam que a maior parte do petróleo que transita pelo estreito se destina à Ásia, principalmente à China.

Cichen Shen, editor-chefe para a Ásia-Pacífico da Lloyd’s List, afirmou ter encontrado indícios ‘online’ de que as autoridades chinesas estavam a trabalhar num plano de saída para os seus petroleiros bloqueados na região.

Os analistas do JPMorgan especificam que 98% do tráfego petrolífero observado no estreito era de origem iraniana, com uma média de 1,3 milhões de barris por dia no início de março. Um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito mundiais transita pelo estreito em tempos de paz.

“Parece que alguns navios transitam com a ‘aprovação’ do Irão, sendo que alguns seguem uma rota mais próxima da costa iraniana do que o habitual”, nomeadamente navios indianos e paquistaneses, indicou a consultora marítima Clarksons numa nota, citada pela AFP.

“Vários governos, incluindo a China, mas também a Índia, o Paquistão, o Iraque e a Malásia, estão em negociações diretas com Teerão para coordenar as passagens de navios” com os Guardas da Revolução Islâmica, acrescentou Meade.

Segundo a Lloyd’s List, pelo menos, nove navios utilizaram um “corredor” aparentemente aprovado pelo Irão, perto da ilha de Larak, ao largo da costa iraniana, para serem inspecionados pelas autoridades iranianas.

O chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araqchi, citado hoje pela agência de notícias japonesa Kyodo, afirmou que Teerão está disposta a facilitar a passagem de navios japoneses pelo Estreito de Ormuz.

Araqchi afirmou na sexta-feira, numa entrevista telefónica com a agência japonesa, que o Irão não fechou esta via estratégica, mas que impôs restrições aos navios de países envolvidos nos ataques contra a República Islâmica, e que o país persa está preparado para garantir uma passagem segura a nações como o Japão — que depende em 90% do petróleo proveniente do Médio Oriente — se estas se coordenarem com Teerão.

A entrevista foi igualmente partilhada por Araqchi no seu canal oficial na rede de mensagens Telegram.

A questão da navegação de navios japoneses pelo estreito de Ormuz foi abordada em conversas recentes entre Araqchi e o homólogo japonês, Toshimitsu Motegi, disse o ministro iraniano à Kyodo, salientando que as discussões continuam, mas que os detalhes não podem ser revelados.

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