
Londres, 11 mar 2026 (Lusa) — Uma equipa internacional de cientistas vai durante dois meses do verão analisar na Gronelândia a rapidez com que derretem os glaciares e o seu impacto climático no Atlântico Norte e à escala global.
Os investigadores viajarão para a ilha ártica para estudar o comportamento dos glaciares utilizando uma vasta gama de tecnologias, como parte do projeto quinquenal “GIANT”, liderado pelo “British Antarctic Survey” (BAS, que faz investigação nas regiões polares), em colaboração com outras 17 instituições e financiado pela agência pública do governo britânico para a investigação avançada.
A investigação pretende prever com a maior precisão possível quando será atingido o chamado “ponto de inflexão”, o limiar em que as alterações climáticas na região poderão tornar-se irreversíveis, um marco que alguns especialistas estimam para a década de 2040, explicou hoje o BAS em comunicado.
“Sabemos que a Gronelândia está a perder gelo a um ritmo sem precedentes e que isso afetará o oceano circundante, desde os fiordes costeiros (…) até às correntes que transportam calor para a Europa Ocidental”, disse citada no documento Kelly Hogan, cientista climática do BAS e cocriadora do projeto GIANT, classificando a expedição como “extremamente ambiciosa e urgente”.
O problema é que, de momento, não existe informação suficiente sobre a interação entre os glaciares da Gronelândia e o oceano circundante e não foi possível monitorizar os quase 200 fiordes da ilha com modelos computacionais, algo que tentarão melhorar durante a expedição.
De acordo com o BAS, as implicações do degelo na ilha governada pela Dinamarca vão além dos seus habitantes, uma vez que, globalmente, o fluxo de água doce para o Atlântico Norte pode alterar os padrões que regulam o clima e a meteorologia na Europa, além de contribuir para a subida do nível do mar.
Durante a expedição, os investigadores vão utilizar drones, robôs submarinos, satélites e instrumentos embutidos no gelo glaciar para estudar o comportamento dos glaciares em todas as escalas. Irão incorporar os fiordes no principal modelo climático do Reino Unido e desenvolver um protótipo de sistema de alerta precoce para antecipar as alterações glaciares.
Este sistema de observação coordenado permitirá aos investigadores estudar o comportamento dos glaciares a múltiplos níveis, e os dados recolhidos alimentarão diretamente modelos informáticos baseados em inteligência artificial.
O navio de investigação Sir David Attenborough atuará como laboratório flutuante e também fará medições detalhadas da profundidade, forma, temperatura, salinidade e correntes oceânicas dos fiordes.
O oceanógrafo da BAS Pierre Dutrieux, especialista em instrumentos autónomos para a captura de dados de ambientes oceânicos e de gelo extremos, afirmou que, para compreender como os glaciares derretem e se fraturam, é necessário chegar ao ponto de encontro entre o gelo e o oceano, e a última geração de sensores robóticos permite “trabalhar neste ambiente perigoso que seria inacessível de outra forma”.
Apesar disso, o professor Paul Holland, que lidera o trabalho de modelação computacional do projeto GIANT, alertou que poderá não ser possível prever a perda de gelo, mas o conhecimento adquirido irá melhorar as capacidades de previsão climática e o potencial impacto da Gronelândia no Atlântico no futuro.
Esperam também que o protótipo de alerta precoce forneça “dados cruciais” que possam ajudar os governos a preparar-se e a adaptar-se às consequências das alterações climáticas no planeta.
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