
Dubai, 23 jan 2026 (Lusa) — O procurador-geral do Irão classificou hoje como “completamente falsas” as repetidas declarações do presidente dos EUA que suspendeu as execuções por enforcamento de 800 manifestantes detidos naquele país.
Entretanto, o número total de mortos resultado da forte repressão às manifestações em todo o Irão subiu para pelo menos 5.032, segundo ativistas.
Os ativistas receiam que o número de mortos seja muito maior, mas têm dificuldade em confirmar as informações, uma vez que o Irão vive o bloqueio à internet mais abrangente da sua história, que já ultrapassou as duas semanas.
Neste cenário, também as tensões continuam elevadas entre os Estados Unidos e o Irão, com um grupo de porta-aviões americanos a aproximar-se do Médio Oriente, algo que o presidente dos EUA, Donald Trump comparou a uma “armada” em comentários aos jornalistas na quinta-feira à noite.
Analistas afirmam que um reforço militar poderia dar a Trump a opção de realizar ataques, embora até agora o chefe de Estado norte-americano tenha evitado isso, apesar das repetidas advertências a Teerão.
A execução em massa de prisioneiros tinha sido uma das suas linhas vermelhas para o uso da força militar, a outra era o assassinato de manifestantes pacíficos.
“Embora o presidente Trump pareça agora ter recuado, provavelmente sob pressão dos líderes regionais e ciente de que os ataques aéreos por si só seriam insuficientes para fazer cair o regime, os recursos militares continuam a ser transferidos para a região, indicando que uma ação cinética ainda pode acontecer”, afirmou o think tank Soufan Center, com sede em Nova Iorque, numa análise divulgada hoje.
Trump afirmou repetidamente que o Irão suspendeu a execução de 800 pessoas detidas nos protestos, sem dar mais detalhes sobre o assunto.
Hoje, o procurador-geral do Irão, Mohammad Movahedi, negou veementemente essa informação em comentários divulgados pela agência de notícias Mizan, ligada ao poder judiciário.
“Essa alegação é completamente falsa; esse número não existe, nem o poder judiciário tomou tal decisão”, afirmou Movahedi.
As suas observações sugeriram que o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, liderado por Abbas Araghchi, pode ter dado esse número a Trump.
Araghchi tem uma linha direta com o enviado dos EUA, Steve Witkoff, e conduziu várias rondas de negociações sobre o programa nuclear do Irão com ele.
“Temos uma separação de poderes, as responsabilidades de cada instituição estão claramente definidas e não recebemos, em nenhuma circunstância, instruções de potências estrangeiras”, afirmou Movahedi.
Um responsável da Casa Branca contestou hoje a afirmação de Movahedi e reafirmou que as execuções planeadas foram canceladas como resultado das advertências de Trump. O responsável, que não estava autorizado a comentar publicamente e falou sob condição de anonimato, sublinhou que Trump estava a acompanhar de perto a situação no Irão e que “todas as opções estão em cima da mesa se o regime executar manifestantes”.
Numa sessão especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre o Irão, realizada hoje em Genebra, Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, expressou preocupação com “declarações contraditórias das autoridades iranianas sobre se os detidos ligados aos protestos podem ser executados”.
O alto comissário da ONU referiu que o Irão “continua entre os países com mais execuções no mundo”, com pelo menos 1.500 pessoas executadas no ano passado, o que representa um aumento de 50% em relação a 2024.
O último número de mortos no Irão foi divulgado pela Agência de Notícias dos Ativistas dos Direitos Humanos, sediada nos EUA, que informou que mais de 4.700 dos mortos eram manifestantes e acrescentou que mais de 27.600 pessoas foram detidas.
Os números do grupo têm sido precisos em distúrbios anteriores e contam com uma rede de ativistas no Irão para verificar as mortes. Esse número de mortos excede o de qualquer outra ronda de protestos ou distúrbios no país nas últimas décadas e lembra o caos que rodeou a Revolução Islâmica do Irão em 1979.
O governo do Irão divulgou o seu primeiro número de mortos na quarta-feira, afirmando que 3.117 pessoas foram mortas e acrescentou que 2.427 dos mortos nos protestos que começaram a 28 de dezembro eram civis e forças de segurança, sendo os restantes “terroristas”.
ATR // RBF
Lusa/Fim
