
Praia, 18 jan 2026 (Lusa) — Cristina da Luz, cabo-verdiana recém-formada em cinema nos Estados Unidos, criou uma empresa de produção e está a gravar a curta-metragem “Maresia”, filme de terror psicológico, um género por explorar nas ilhas.
A produtora quer mergulhar em narrativas em que o terror esteja entrelaçado com o folclore africano, conta à Lusa a empreendedora de 23 anos, numa entrevista feita durante um intervalo nas filmagens, na praia de São Francisco, ilha de Santiago.
“Sou cabo-verdiana, queria que o meu primeiro filme fosse em Cabo Verde e que contasse uma história com que as pessoas se identificassem”, com o mar como pano de fundo: “é a grande presença na nossa vida e decidi fazer um filme em que o mar também seja uma personagem”.
O Atlântico une e divide, porque “muita gente tem um histórico de emigração”, saudade e distância, mas profissões como a pesca fazem-se no oceano, cuja costa e praias também juntam famílias e amigos em lazer.
No filme, o mar tem esse duplo sentido, com uma protagonista feminina a naufragar numa ilha deserta.
“Acho que o terror é tabu, em geral”, em Cabo Verde, diz Cristina da Luz, que faz questão de separar águas: há filmes com terror manchado de sangue e povoado por monstros e há o terror psicológico de “Maresia”.
“A parte mais assustadora do filme é ver como uma pessoa pode, em tão pouco tempo, ter uma decadência mental tão grande. O terror está mais nisso, o quão real e perto de nós esta história pode estar, porque pode acontecer com qualquer um”, descreve.
Não foi fácil convencer os patrocinadores, mas os argumentos da criadora vingaram.
Cabo Verde e África, em geral, “têm muitas historias que nos meios de comunicação tradicionais não conseguimos explorar, mas acho que o terror é um bom mecanismo para convidar audiências mundiais”, assinala Cristina.
Sheila Martins, 31 anos, atriz da companhia de teatro Fladu Fla (expressão em língua cabo-verdiana equivalente a “diz que diz”), descansa por uns momentos no areal, enquanto a equipa de maquilhagem retoca uma ferida simulada numa das pernas.
“Aceitei o desafio”, dos palcos para a tela, num género pouco trabalhado no arquipélago, exercício que requer capacidade de adaptação, além de ser necessária força para suportar o peso da historia, conta à Lusa.
Fátima, a personagem que interpreta, é uma mãe em sofrimento e Sheila tem procurado trazer à flor da pele o perfil “daquelas mulheres que sofrem bastante”.
Cabo Verde tem atores “para atuar em todas os géneros artísticos”, diz Sheila.
“O que falta é apoio financeiro e mais investimento”, ou seja, uma espécie de ignição para colocar em marcha uma área de atividade que está por explorar.
Três personagens de “Maresia” são do grupo Fladu Fla, num trabalho de seleção e pré-produção de uma equipa oriunda de Cabo Verde e Estados Unidos, como a realizadora Zamzam Elmoge, 23 anos, que Cristina conheceu no Emerson College, onde ambas se formaram.
“Dá-me confiança para ser realizadora, ao estar em Cabo Verde, com uma comunidade que não é a minha”, diz à Lusa, por entre a azáfama das filmagens.
O guião seduziu-a porque “é íntimo, mais ligado ao quotidiano do que se possa imaginar”, tocando em temas como trauma, luto, perda, com “uma mãe que sofre, porque perde alguém”.
O vento não dá descanso na praia de São Francisco e uma das responsáveis pela produção aponta para o relógio e para uma tabela.
As filmagens têm um horário a cumprir para, nos próximos dias, seguirem para outros locais da ilha (Moia Moia e Portinho).
A equipa de cerca de uma dezena de pessoas mostra à vontade no cenário de filmagens, ambiente conhecido da formação nos Estados Unidos, onde Cristina da Luz viveu durante quatro anos, com experiências como produtora e assistente de realização.
“Espero que este projeto abra portas para atores e outras pessoas interessadas em fazer filmes” em Cabo Verde, conclui.
A curta-metragem, de 20 minutos, deverá percorrer festivais em todo o mundo e estrear em Cabo Verde em dezembro deste ano de 2026.
LFO // VM
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