Ex-líder rebelde e atual Presidente sírio diz-se “a maior vítima” do Estado Islâmico

Damasco, 26 ago 2025 (Lusa) — O ex-líder rebelde e atual Presidente sírio, Ahmad al-Sharaa, descreveu-se hoje como “a maior vítima” do grupo terrorista Estado Islâmico, ao qual esteve filiado antes de comandar a operação que depôs o regime de Bashar al-Assad.

Em conferência de imprensa em Damasco, al-Sharaa justificou que milhares de membros do seu grupo foram mortos em combates na Síria contra o Estado Islâmico, referindo-se à Organização para a Libertação do Levante (Tahrir al-Sham), que fundou após se desligar dos grupos terroristas.

Anteriormente, o atual líder das autoridades de Damasco criou a Frente al-Nusra, em plena guerra civil síria, que foi afiliada em momentos separados do Estado Islâmico e da al-Qaeda e que continuam ativas no país e na região.

Hoje, afastou-se mais uma vez do terrorismo, ao comentar que “todas as ideologias nacionalistas e islâmicas falharam na região”, realçando que não mantém igualmente ligações à Irmandade Muçulmana, segundo relata o jornal An Nahar, do Koweit, e a agência Europa Press.

Al-Sharaa explicou que a sua partida em 2003 para o Iraque, onde se juntou à al-Qaeda, estava relacionada com a presença de tropas estrangeiras no país, em plena invasão lançada pelos Estados Unidos e vários aliados.

“Fomos ao Iraque para combater a ocupação americana, contra a qual todos os iraquianos lutavam, mas o estranho é que os iraquianos acabaram por ser ‘mujahidins’ [combatentes islâmicos], e nós, que fizemos o mesmo, fomos considerados terroristas”, declarou o antigo rebelde, que retomou o seu nome de nascimento após chegar ao poder em Damasco e abandonar a designação de Abu Mohammed al-Julani.

No seguimento da dissolução da Frente al-Nusra e criação do HTS, que liderou a partir de Idlib, no norte da Síria, a operação relâmpago para depor em dezembro o regime de Bashar al-Assad, o atual Presidente de transição tem usado um discurso de conciliação nacional para unir a diversidade étnica e religiosa, ao fim de quase 14 anos de guerra civil.

“A Síria assenta na tolerância, não na vingança, seja internamente ou contra as forças que interferiram nos assuntos sírios”, afirmou hoje aos jornalistas, retomando a sua retórica conciliatória, que foi bem recebida pela maioria dos países da região e do ocidente, e que retirou al-Sharaa da lista de terroristas procurados pelos Estados Unidos.

“As crises e as guerras são a opção fácil, mas destroem países e não resolvem nada”, insistiu al-Sharaa, que mostrou abertura para o diálogo com todas as partes sobre todos os assuntos, “menos a secessão”.

Nos primeiros meses sob a gestão das novas autoridades, a Síria tem sido marcada por episódios de violência sectária, que envolveram membros da comunidade alauita, à qual pertencia o ex-Presidente Bashar al-Assad, e as atuas forças governamentais, constituídas sobretudo por sunitas do HTS, e ainda a comunidade drusa, apoiada por Israel.

“A solução não é militar, mas o arrefecimento da situação para preparar o fim [do problema] através de um acordo mútuo e dentro da estrutura da unidade do território sírio”, assinalou hoje al-Sharaa.

Por outro lado, explicou que um acordo com Israel para a normalização das relações não está próximo, devido à presença de tropas israelitas no sul da Síria, onde se posicionaram na zona desmilitarizada entre os dois países em pleno golpe dos rebeldes contra o regime de al-Assad.

Nesse sentido, o presidente de transição alertou que que os países que aderiram aos Acordos de Abraão em 2020 — Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão — não estão ocupados por Israel e defendeu que o futuro das relações com o país vizinho depende da devolução dos Montes Golã, o que abriria as portas a um acordo de paz permanente.

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