Voluntários passam tempo com idosos isolados na freguesia de Paranhos

Porto, 21 mar 2026 (Lusa) – Maria Alice Campos está quase a fazer 80 anos e recebe como “um milagre” cada visita de Bruno e Ariel, voluntários do projeto COMTEMPO da Junta de Paranhos, no Porto, para combater a solidão e isolamento na terceira idade.

Para se chegar à sala de estar onde a ‘Dona Alice’ recebe os convidados, é preciso subir dezenas de lanços de escadas, na Rua Cunha Junior, junto à Piscina da Constituição, mas o sorriso com que recebe os voluntários de um projeto que agregou a junta à Cruz Vermelha não engana.

“Adoro. Quando vêm cá, sinto logo. São muito queridos, sinto-me muito bem. Já os conhecia, de uma ocasião. Não sou assim muito comunicativa, vivo mais sozinha, no meu cantinho. Fui sempre assim. Eu e o meu marido, criei os meus filhos todos nesta casa”, explica à Lusa.

Alice Campos tem sido acompanhada há mais de um ano por esta dupla que lhe faz companhia, que a acompanha pela vida e que parece saber quer as peripécias do dia a dia quer memórias do passado, um que não partilha com muita gente porque começa a ser “raro” ter visitas, com muita da família emigrada ou a viver fora do Porto.

“Isso às vezes entristece-me. Mas mentalizei-me que a vida é assim, tenho de aguentar. Isto foi um milagre que me apareceu”, diz emocionada, junto dos dois amigos.

Numa casa cheia de cartazes, canecas, colheres, calendários e outros objetos associados ao Boavista, um clube que vive dias do pior, Dona Alice tem hoje a visita de uma sobrinha, também ela Maria Alice, Lavrador de último nome.

“Criou-me desde os 4 anos. É como uma mãe”, diz a residente em Favaios, que voltou de França após um quarto de século fora.

Queria morar perto da tia, que gosta da sua independência, mas tem-se resignado a visitá-la para ajudar com a farmácia ou outras necessidades, como as análises – estas, brinca, ficam logo adiadas porque coincidem com a vinda de Bruno e Ariel, esse “é dia de festa”.

Por vezes, vão lá fora, ao pátio, ao quintal que faz brilhar os olhos de Dona Alice, entre o diospireiro que todos os meses de setembro dá dióspiros “maduros, mas durinhos, que se comem como uma maçã”, apanhados por Ariel e Bruno, e morangueiros, trevos de quarto folhas e outros ‘verdes’ – é sem dificuldade que oferece flores do quintal, aos voluntários e ao resto da equipa que os acompanhava naquele dia.

Habituada a ter a casa cheia, emociona-se muitas vezes a conversar das memórias de família, da sua paixão pelos ‘axadrezados’, numa companhia que Bruno Costa, um dos 20 voluntários já formados pela Cruz Vermelha e no terreno a trabalhar, em duplas, com idosos isolados, já chama de amizade.

Quando não podem vir, telefonam, às vezes levam bolo – ou são recebidos por um bolo, quando a amiga tem mais vagar – e em muitos aspetos acompanham a vida de alguém com “vontade de receber”.

“Dá-me amizades novas. Principalmente a Dona Alice, já criámos uma relação. Dá-me também um bocadinho de conforto saber que conseguimos mitigar um bocadinho o vazio da população idosa da freguesia, e trazer calor, amor e acompanhamento”, refere à Lusa.

O gestor comercial de 42 anos vive ali perto, faz piscina na Constituição e, lá, cruza-se com muitos idosos, com filhos “emigrados ou longe”, e talvez por isso, inscreveu-se em dois projetos da junta, este e um outro, com o GAS Porto, em que também atende idosos, igualmente em regime de voluntariado.

“Acho que todos nós temos vizinhos de quem nem sabemos o nome, a idade ou a sua história. Às vezes, ao nosso lado há casos destes”, desabafa.

O presidente da Junta, Miguel Seabra, foi eleito pela coligação PSD/CDS-PP/IL, a mesma ‘cor’ política do presidente da câmara, Pedro Duarte, e explica à Lusa que a dimensão de um município faz com que as juntas devam assumir estes projetos “cuja implementação implica proximidade e conhecimento do terreno”.

“Fui presidente de junta pela primeira vez no final de 2001. Quando voltei, há cinco anos, após 12 de ausência, notei a freguesia ainda mais envelhecida. Muitas vezes, esta gente não sai de casa, está sozinha. Este isolamento social tem vindo a agravar-se”, conta.

Como tinham “de arranjar uma resposta para ajudar a resolver este problema”, recorreram ao voluntariado e à Cruz Vermelha, “quem melhor entende esta problemática”, para ‘atacar’ um problema que se relaciona, também, com “a perda de comunidade”, com os laços cada vez menos visíveis entre vizinhos.

“Sabia-se na farmácia que, se alguém não ia buscar os medicamentos… este sentimento de vizinhança perdeu-se e tentamos recuperar isto, que os vizinhos se preocupem”, nota.

Os próprios voluntários são escolhidos e formados e, depois, colocados junto de idosos que morem perto de si, oferecendo mais do que ‘duas de letra’: companhia, ver se a medicação está a ser tomada e bem tomada, ajuda com pequenos recados, a retoma de manualidades como o crochê, uma “rede social” que fica humanizada.

“[Queremos] coser outra vez a cidade, criar estes laços de vizinhança e comunidade. Com a vida louca que as pessoas levam hoje em dia, estão cada vez mais de costas voltadas”, lamenta o autarca.

*** Simão Freitas (Texto) e José Coelho (Fotos), da agência Lusa ***

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