
Boane, Moçambique, 09 fev 2026 (Lusa) — Na Escola Comunitária Filipe Samuel Magaia, província de Maputo, transformada há semanas em centro de acolhimento para deslocados, Abdul não pensa voltar para casa, inundada, pedindo apenas um novo terreno, numa área segura, para tentar recomeçar a vida.
“A minha ideia é de nos darem um espaço só para construirmos e fazermos as nossas vidas, não estou a pensar em voltar para casa”, pede Abdul Jossias, no centro de acolhimento montado naquela escola, na localidade de Estevele, distrito de Boane, no sul da capital moçambicana.
Abdul, 42 anos, recorda ter conseguido salvar a família, de seis pessoas, depois de ver a casa inundada na localidade de Mazambanine, em Boane, relatando estar a viver o drama das inundações pela segunda vez. Alguns anos depois, vê-se de novo acolhido num centro de deslocados, onde diz faltar um pouco de tudo, sobretudo alimentação.
“A situação aqui está péssima, estamos a passar mal”, desabafa, junto dos amigos que montaram uma estação para carregamento de telemóveis perto de uma brigada de saúde, dirigida pelos médicos militares.
Abdul Jossias quer fazer desta a última vez que é acolhido num centro devido às inundações, onde há dezenas de tendas para as vítimas, pedindo a atribuição de um novo espaço para erguer uma casa em segurança.
“Passei mal com as cheias de 2023 e este ano aconteceu a mesma coisa”, recorda, de rosto cansado, ao pensar em reconstruir a vida, de novo.
Desde o início da época das chuvas, em outubro, incluindo as cheias de janeiro, há registo de mais de 200 mortos e acima de 845 mil pessoas afetadas, segundo dados oficiais.
Para apoiar o centro onde está acolhido em Boane, o banco privado moçambicano MozaBanco anunciou ter doado nos últimos dias bens e produtos alimentares, que inclui feijão, arroz, produtos de higiene e roupas, iniciativa que está a ser replicada por várias instituições privadas, face à falta de recursos públicos para os 100 mil deslocados que chegaram a ocupar mais de 100 centros de abrigo criados no país desde janeiro.
No mesmo centro, Joana Francisco, 36 anos, mãe de três, recorda também ser a sua segunda vez que é afetada pelas cheias. Em 2023 viu a água tomar a casa e conta que só sobreviveu por ter sido resgatada.
“Sou das cheias de 2023, perdi tudo, quando fui tirada das águas passei por cima da minha casa com barco quando fui resgatada, não reconhecia. Já não tinha nada, nem árvore, nem nada”, conta à Lusa, lembrando que aquele cenário é para “esquecer” e rejeitando a hipótese de passar pelo mesmo novamente.
Em janeiro, voltou a ver a sua localidade de Estevele, distrito de Boane, a ser tomada pelas inundações, com a zona isolada pelas águas.
“Nós todos terminávamos na vila, saíamos da vila de Boane para aqui e daqui para a vila, mas eu achei que estava tudo bem porque não houve nenhuma morte”, detalha, a partir do centro de acolhimento na Escola Comunitária Filipe Samuel Magaia.
Joana também se queixa de falta de condições básicas naquele centro, desde o alimento à higiene pessoal para preservar a sua vida dos membros da sua família, mas admite ser melhor ficar por ali a voltar para uma casa já irreconhecível.
“Eu aqui estou para recomeçar, não penso em voltar atrás, porque voltando atrás estou a dar trabalho, sempre vão ter que tirar a mesma pessoa”, salienta, saudando a existência de serviços de saúde oferecidos por médicos militares para atender doentes.
No mesmo centro, Joana formou uma equipa junto das outras vítimas para apoiar nas limpezas das sanitárias da escola para preservar a vida de centenas de famílias abrigadas por ali.
“Eu e o moço aqui vimos que a situação não está boa, não recebemos nada, não fomos prometidos nada, nos dedicamos só para cuidar das casas de banho. Nós não dormimos, estamos aqui desde 04:00 para cuidar das casas de banho e preservar a saúde, mas aqui está se mal, estamos a pedir ajuda”, atira, antes de voltar para as limpezas daquele espaço comum.
Mesmo entre as inundações, Joana ainda sonha em abrir o próprio negócio, um salão de beleza ou uma loja, para ajudar as pessoas que se queixam do desemprego.
“Meu sonho, no futuro, é ter uma empresa para ajudar ou outros, montar um salão e uma barraca, para dar emprego a outra pessoa, é o que eu gostaria”, diz.
Das cheias, Joana lembra-se de ter somente conseguido salvar os filhos e algumas malas de roupas, lamentando que pessoas da sua comunidade tenham começado a retomar às casas que ainda estão inundadas.
“Outras foram para casa, ainda tinha água, mas voltaram porque aqui estão a sofrer, mesmo sabendo também que em casa vão viver mal porque ainda tem água, mas se sentem a vontade porque lá vão procurar o que comer, porque aqui está a se viver mal”, diz, pedindo mais alimentos.
“As pessoas estão a sair dos centros para as casas, mas não têm nada para recomeçar, e voltam de novo para os centros só para terem refeição de noite e voltam para casa”, conclui.
VIYS // VM
Lusa/Fim
